Perdemos a nossa
rua e nosso trabalho

Como toda a humanidade, detesto mudanças. Sou o tipo de mulher tradicional, metódica, que não gosta de mudar de lugar, rompendo com velhas tradições. Ainda mais quando sou forçada a sair de um cantinho que era só meu, onde passei alguns dos melhores momentos da minha vida profissional, durante 15 anos.

A mudança não foi espontânea, pelo contrário, foi forçada, truculenta, até mesmo violenta, gentileza da polícia.

Estou falando da esquina da Rua São Luís com Avenida Senador José Sarbey, onde por muitos anos ganhei todo o meu sustento, conheci os melhores e piores clientes que a minha profissão pode encontrar e fiz também sólidas e desinteressadas amizades entre as minhas coleguinhas de rua.

Além de mim, cerca de 40 garotas perderam seu local de trabalho e agora não sabem para onde ir. Foi tudo uma manobra suja de um deputado que mora na vizinhança que, ao ser recusado como cliente por uma das minhas amigas, ficou furioso e prometeu que iria se vingar. Mexeu bem os pauzinhos, fez um escândalo nos jornais, disse que era uma vergonha o que acontecia na nossa esquina, diante de famílias respeitáveis, e que o local estava tomado por “deusas da noite, filhas das trevas”, segundo a definição dele. Logo ele, um corrupto sacana.

Numa noite do começo deste mês, cinco carros chegaram de repente, um monte de PMs apareceu de cassetete e tudo e alguns passaram a agredir várias amigas, que não tiveram tempo de correr, como sempre fazem quando avistam o camburão.
Foi um horror, com gritos e meninas feridas, uma delas, com gravidade. Agora vem a parte mais difícil, que é arranjar novo local de trabalho, sem incomodar nem ofender as chamadas “famílias respeitáveis”. Pobre Brasil.