Um emocionante
episódio do passado

Esta minha coluna caiu bem no mês de janeiro, mas fiquem tranquilos, não vou relembrar os Natais passados nem meus planos deste ano. Vou falar sobre um assunto que minhas leitoras, pelo menos minhas amigas, adoram, que é o cinema de antigamente.

Durmo cedo, pois acordo invariavelmente às cinco da manhã, não por causa da idade, mas porque é um hábito que tenho desde os 15 anos, quando estudava para professora, trabalhava à tarde no armarinho do meu tio Gastão e só lá pelas sete da noite eu conseguia ir ao cinema.

Mas era sempre uma luta, pois minha mãe não me deixava ir antes de fazer um pequeno sermão e um monte de recomendações, pois achava que eu era uma mocinha ingênua e as ruas estavam cheias de perigo, com gente malvada, que só pensa “naquelas coisas” (ela não ousava dizer que era sexo).

Quando minha amiga e vizinha, a Elisa, ia junto, aí tudo era mais fácil, pois meus pais achavam que ela era “moça prendada, de boa família, com os pés no chão e a cabeça no lugar certo”, uma expressão da minha mãe que nunca mais esqueci.

Mal sabia minha mãe que a Elisa no caminho ia namorar na pracinha e eu me encontrava com um namoradinho que conheci na escola e que fazia minha cabeça rodar e o coração bater forte sempre que chegava perto dele. O local do namoro era o velho cinema Rex, num subúrbio de Juiz de Fora, onde passei quase toda a juventude.

O filme daquela noite era um drama famoso, que enchia os cinemas, “Seu Único Pecado”, com um ator chamado Akim Tamiroff, que interpretava um gerente de banco honesto e respeitado na sua cidadezinha do interior. Até que é enviado em missão a Nova York, fica fascinado com o que vê e acaba caindo nas garras de uma vigarista, que rouba o dinheiro do banco que ele levava e todos os seus documentos.

O destino então faz das suas. O cúmplice da vigarista é morto por um trem e a polícia acha no corpo os documentos do gerente do banco e avisa a família que ele morreu. E começam as lágrimas, que chegavam a incomodar as platéias, pois poucos eram os que não choravam. Numa cena, na noite de Natal, ele volta a sua cidade e vê pela janela a família reunida e, com vergonha pelo que aconteceu, decide que não vai entrar e aceita o seu castigo.

Mas a emoção maior vem no final do filme. O filho, que era um menino, quando tudo aconteceu, é agora um adulto e violinista famoso, o pai compra uma entrada para a torrinha do teatro, e quando o rapaz começa o concerto,ele se emociona, apóia a cabeça no balcão e chora emocionado.

Quando as luzes se acenderam no cinema, homens e mulheres não conseguiam esconder os soluços. A que mais chorava era eu. Mas logo engoli as lágrimas, pois bem na minha frente estavam os meus pais. Minha mãe chorava tanto, com o meu pai tentando consolá-la, que nem me viu. Fui voando para casa e nunca mais esqueci “Seu Único Pecado”, que por muitos motivos é o meu filme predileto.