Meus melhores do ano

Como faço tradicionalmente nesta coluna, divulgo a relação dos filmes que considero os melhores e mais relevantes do ano que passou. Desta vez, em meio a 235 lançamentos exibidos na cidade, ficou mais difícil selecionar os vencedores. O motivo todos sabemos: a avassaladora quantidade das drogas “made in Hollywood”, que mais uma vez tomaram de assalto nossas salas exibidoras e impediram a distribuição de obras mais importantes e adultas de outros países, notadamente aquelas da Ásia e Europa Central.

Entra ano, sai ano, a rotina não muda: os americanos, sempre furiosamente dominadores, não permitem que a produção de outros países tome o lugar de suas mediocridades infantis. É a velha batalha pelos dólares do Terceiro Mundo. Resultado, e tome porcaria.

Mas ainda assim, contra tudo e todos, consegui pinçar algumas pérolas, mesmo que para isso precisei ir a cinemas afastados no subúrbio, alguns verdadeiros pulgueiros, que é onde o trator hollywoodiano permite que obras de arte sejam exibidas.

Apesar de tudo, três obras-primas conseguiram furar o bloqueio. Não é nada, mas sozinhas valem por 100 drogas de Hollywood.

O melhor filme do ano, acima de todos os outros, foi Pahit Soukar, inspirada coprodução entre Arábia Saudita, Indonésia e Bulgária, contando de forma comovente e chocante um episódio trágico ocorrido no ano de 1348, quando 100 antílopes foram envenenados pela água de um rio onde foram executados dez guerrilheiros a mando de um cruel senhor de terras.
Exibido aqui como “O Vale Tranquilo e Ensolarado Onde os Doces Animais Pastavam em Paz”, este drama arrebatador contou com o toque de gênio de um novo e talentoso diretor, o holandês Kerstmis Ajam Belanda, que graças a este primeiro filme já pode ser incluído na galeria dos gigantes da Sétima Arte.

O segundo lugar fica com o dinamarquês “Dylma und Linc und Inacio”, feito em 1992, mas só agora exibido no Brasil, graças ao impenetrável bloqueio de Hollywood, que com certeza temia que um maravilhoso drama como este, feito à perfeição pelo cineasta Ziege Sauer, permitisse a comparação com o lixo americano. Sauer morreu pouco depois de terminar o filme, vítima de um terremoto na Grécia, juntamente com três mil pessoas. Mas deixou para a posteridade esta obra de exceção, sobre um casal de camponeses que combatem a destruição do meio ambiente, já naquela época, e acabam condecorados pelo rei dinamarquês numa cerimônia em Copenhague.

A comédia romena “Ciorapi Murdar” (exibido entre nós como Um Avassalador Romance Moderno na Secular Bratislava) é a nossa terceira escolha. Uma sátira saborosa tendo como tema o “efeito estufa” causado pelo gado, o filme de Slovan Opeka, desmistifica com inteligência a atual histeria mundial sobre o meio ambiente limpo e saudável. Um achado de criatividade e sensibilidade e certamente a obra definitiva sobre o assunto. E aquela epidemia de gafanhotos azuis que invade a cidade é talvez a maior alegoria sobre a esperança que se renova já mostrada pelo cinema.