| Não
quero deixar o leitor com a impressão de que sou um aposentado
velho, ranheta e chato, ainda mais nesta época de festas
e corações desarmados. Então, vou revelar
uma história que aconteceu comigo, que conto meio sem graça
porque não é lá muito inocente.
Clotilde,
a minha esposa, tinha morrido cinco anos antes e eu andava macambúzio
porque era véspera de Natal e parecia que ia passar sozinho.
Vocês não imaginam como é triste ficar só
nas festas de fim de ano. Dá um vazio e até desespero.
Era
assim o meu estado de ânimo quando bateram na porta da minha
casa, eu fui abrir e dei de cara com a minha cunhada, Elvira,
irmã da Clotilde. Ela era uma morena alta, jovem, que não
parecia nem a metade dos seus 52 anos.
Só
de vê-la na minha frente, naquela tarde sombria, meu coração
se animou e mais ainda porque ela abriu um sorriso daqueles de
derreter qualquer pedra de gelo. Naqueles tempos, só para
o meu querido leitor e querida leitora terem idéia, eu
não era de jogar fora também, e tinha um quê
de Tyrone Power, como dizia a minha esposa, me comparando com
o galã de Hollywood que as mulheres achavam o mais bonito
de todos os da terra do cinema.
Conversa
vai, conversa vem, ela acabou contando que tinha vindo me convidar
a passar o Natal na casa dela, o que aceitei de imediato, pois
na minha situação eu aceitaria até um convite
do Tenório Cavalcanti, um deputado famoso na época,
que diziam que era só bobear que ele tacava fogo com sua
metralhadora, apelidada de Lurdinha.
Então
eu perguntei a se aceitava um licor, ela disse que sim, e servi
um de jabuticaba, que era gostoso e um pouco forte demais. No
terceiro licor, ela já estava falando molhe e eu também.
Aí,
uma coisa inesperada aconteceu. Ela veio com a conversa que gostava
muito de mim, e coisa e tal. Eu achei estranho, partindo da minha
cunhada, mas quem não gosta de uma morena bonita na sua
frente dizendo que você é o tal? Então, ela
pegou a minha mão com força e botou bem no coração,
que não era bem o coração, se vocês
me entendem.
Meio
sem graça, acabei concordando com os avanços dela
e para não contar o que não devo, partimos para
um monte de beijos e amassos e se não fosse o telefone
tocar, nem sei aonde a gente ia chegar. Ela se levantou depressa
e foi embora.
Depois
fiquei envergonhado de ter baixado a guarda. A esta altura, meu
paciente leitor deve estar perguntando: “E daí, qual
é a novidade e quem não gosta de uma situação
dessas?”
Tudo
bem, digo eu. Só que a Elvira era casada com um grande
amigo meu. Até hoje me envergonho. |