O livro dentro do livro

Na minha primeira visita ao Brasil, nos longínquos anos 60, uma coisa me chamou a atenção mais que todas: era raro encontrar alguém lendo livros nos transportes públicos. Ao contrário da Europa, onde um vagão do metrô, um ônibus ou um trem parecem livrarias em movimento, de tantos que leem.

Então, numa viagem de ônibus do Rio a São Paulo, sentou-se ao meu lado um jovem de seus vinte e poucos anos, carregando um livro volumoso, cuja quantidade de páginas era um desafio e indicava que era leitor frequente.

Não resisti e fiz a pergunta clássica e óbvia: “Você gosta de ler?”

“Não, não gosto muito”, foi a resposta inesperada.

Passada a surpresa, apontei para o livro, que estava no colo dele.

“Ah, isso? Não é livro não. É uma caixa de presente em forma de livro”, explicou, para minha surpresa ainda maior. “Trabalho como vendedor numa firma que fabrica embalagens para presente, e esta é a campeã, a que vende mais”.

E abriu o que parecia um livro, e nada mais era que uma boa imitação em papelão de um livro. Era oco, e no espaço vazio lá dentro caberia folgadamente um livro de verdade, de tamanho médio, com umas boas 300 páginas. Ou qualquer outra coisa que se quisesse botar lá.

Decepcionado, mudei de assunto, mas aí comecei a raciocinar. Se o falso livro é o que mais vende na empresa, é que o povo quer fingir que lê, sinal de que nem tudo estava perdido. Quando chegamos a São Paulo, despedi-me do rapaz e então ele me surpreendeu outra vez:

“Já que o senhor lê tanto, pode me indicar algum livro bom?”