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Longe do poder, vida do sósia
de Bush entra em decadência


Clod, já decadente, em foto de 2008

Por Lionela Cetriolo
Enviada a Shotgun, Texas

Abner Joseph Clod, o veterinário que sete anos atrás saiu do anonimato ao ser escolhido como sósia do então presidente americano George W.Bush, vive hoje esquecido, sem dinheiro e com a saúde abalada. Os anos de sucesso desapareceram para sempre, quando seu poderoso amigo deixou a presidência no começo do ano e Clod perdeu até mesmo a sua antiga clínica veterinária, vendida a um supermercado, no lugarejo de Shotgun, Texas, a poucos quilômetros da fazenda de Bush.

Velho conhecido do ex-presidente, que costumava levar seus cachorros à clínica, ele foi visto um dia por um agente especial da Casa Branca, que se espantou com sua incrível semelhança com o presidente. Bush concordou imediatamente com a sugestão de fazer de Clod um sósia, no caso, o homem que substitui o presidente em situações que envolvem perigo. Começou então um intenso treinamento de seis meses e também uma nova e agitada vida para ele, que não poucas vezes escapou de ameaças, agressões e até mesmo de ser morto.

Ameaças

Clod relembra o dia, em 2002, quando tomou o lugar do presidente numa visita de rotina a Nova York, onde a popularidade de Bush era zero, por causa do ataque terrorista ao World Trade Center.

“Assim que cheguei ao local da cerimônia, percebi que os ânimos estavam mais do que exaltados”, ele conta. “As vaias eram tantas, e tão altas, que eu mal ouvia o que o chefe dos guarda-costas dizia, ao meu lado. De repente, um tomate passou voando a poucos centímetros da minha cabeça, e foi se espatifar em pleno rosto do guarda-costas, meu amigo texano Bill “Piombo” Gambino”.

Clod diz que, com o tempo, acabou “graduado” em esperteza e em ginásticas rápidas, de abaixar, levantar, se esquivar de tomates, sapatos e até uma pedra, atirados contra Bush, após suas frequentes afirmações erradas, controvertidas e mesmo ofensivas.

“Felizmente, acho que ninguém levava a sério o presidente, a ponto de dar um tiro nele ou em mim”, ironiza.

Saia justa

Outra situação que requereu habilidade e improvisação de Clod, entre dezenas delas, aconteceu durante a inauguração de um centro cívico em Dallas, Texas, que contou com a presença de várias celebridades, uma delas a jovem estrela de Hollywood Audrey Jo Miller. O presidente estava adoentado e o sósia foi enviado em seu lugar. O desafio aconteceu ao ser apresentado à atriz.

Clod conta: “Ela veio na minha direção, sorridente, acompanhada por um político local, e ao se aproximar, parou de repente, sua expressão foi de surpresa e eu percebi que alguma coisa estava errada. Ela não se conteve e perguntou espantada: ‘O senhor é o presidente Bush?!”

Ele continua: “Creio que apesar da minha semelhança, a jovem percebeu que eu não era o presidente, mas um sósia. Antes que a situação se complicasse, tive sangue frio para dizer que minha mulher tinha visto todos os filmes dela. Isso a confundiu e meu assessor aproveitou para pedir desculpas e me levou para longe da mocinha, esperta demais”.

Decadência

Então, subitamente, o mundo presidencial de Clod desmoronou, em setembro de 2008, com a popularidade de Bush chegando aos níveis mais baixos entre todos os presidentes da história americana.

Ele foi desligado da função de sósia, voltou para sua cidade natal e só então descobriu que não se preocupara com o futuro, não fizera economias, deslumbrado, com o poder. Nem mesmo a clínica veterinária ele tinha mais, vendida pela ex-mulher. Clod conseguiu ainda faturar alguns extras, apresentando-se em feiras e shows, mas com o tempo, a rejeição ao ex-presidente continuava em alta, e ninguém mais se interessou por um sósia do presidente.

Hoje, aos 65 anos, com a saúde debilitada, sem vários dentes, vivendo com o parco salário de funcionário de um veterinário de Shotgun, tudo o que resta a Abner Joseph Clod é relembrar os bons e maus momentos como sósia de George W. Bush.