| Não
estou vendo com bons olhos esta crise entre senadores e imprensa,
que só serve para desacreditar ainda mais o já desacreditado
Congresso. Sou de uma família de diplomatas, médicos,
escritores e, vejam só, um político, o único.
Felizmente.
Tio
Hilário Agaciel Calheiros Silveira, irmão de meu
pai, foi senador nos idos de 1930. Segundo minha avó, a
sábia Melinda, conhecida como Dindinha, “o homem
não era flor de se cheirar”. Que tradição,
não?
Ela
conta que, naqueles anos da ditadura, quando não havia
oposição (Hilário, claro, fazia parte da
bancada do governo) e a imprensa era controlada, os políticos
faziam o que queriam, principalmente o que não deviam.
Se bem que não eram tão desonestos e vorazes como
atualmente. E não havia tanto dinheiro à disposição
deles.
Dindinha
conta que o tio senador desfrutava de uma vida de rei e sua casa
tinha do bom e do melhor. Naquele tempo, somente as camadas ricas
e privilegiadas da população sabiam o que era um
uísque importado, um vinho de qualidade, caviar e todas
aquelas coisas que custam caro e fazem as delícias das
pessoas de bom gosto e dinheiro. Pois o senador tinha tudo isso
e muito mais em sua grande e luxuosa mansão, que ficava
numa rua sossegada no bairro de Botafogo, no Rio. Semanalmente,
os estoques de sua adega e de sua despensa eram renovados, tudo
levado de carro por funcionários do Senado.
Minha
avó, que aos 89 anos acompanha pelos jornais, com interesse
e indignação, os escândalos atuais dos senadores,
faz uma ressalva, que não sei se verdadeira ou fruto do
amor pelo falecido filho senador dos anos 30.
“As
patifarias do Hilário a gente pode definir como quase inocentes.
Ele gostava da boa vida, bebida e comida de primeira, recepções
e grandes festas. Mas não era corrupto, faminto e safado
como esse pessoal de hoje em Brasília”. |