| No
mês passado estive em Londres para um congresso de psicanálise,
matéria que sempre me fascinou e que, além de tudo,
servirá de subsídio para o terceiro livro que escrevo
sobre o assunto.
Num
domingo, após extenuantes dias no congresso, fiz um longo
passeio pelo Hyde Park, onde, por sinal, conheci minha primeira
mulher. Fiquei por lá, passeando, sem objetivo, apenas
desfrutando da maravilha que é um dos recantos mais belos,
civilizados e históricos do mundo.
Ao
passar por uma das alamedas cheias de bancos, resolvi sentar-me
e, ao olhar para o lado, vi um senhor lendo o inevitável
e venerando Times. Então, uma campainha começou
a tocar em minha mente. Eu conhecia aquele homem, mas quem era,
onde o vira antes?
Não
demorou muito e outra campainha, a do reconhecimento, tilintou.
Meu Deus, era nada menos que Sir Alfred Hyde-White Goford, meu
professor de literatura e latim nos idos de 80, na London Anglia
University! Mas estava tão acabado, o que teria acontecido?
Decidi
abordá-lo e, para minha alegria, lembrou-se de mim imediatamente,
com elogiosas palavras, que inflaram meu ego às alturas:
“Claro que me lembro de você, Mr. Cult, meu melhor
aluno”.
Foi
uma tarde longa, encantadora e reveladora, pois notei na conversa
dele, vez por outra, um travo de amargura. Não resisti
e perguntei o que acontecera em sua vida. Como bom inglês,
tradicionalmente avesso a invasão em sua intimidade, Goford
de início desconversou, mas acabou cedendo.
Contou-me
que vivia da aposentadoria de professor universitário,
que mesmo na civilizada Inglaterra nunca fez ninguém rico,
e sequer é suficiente para uma vida folgada.
Surpreso,
perguntei o que acontecera com a gorda complementação
de aposentado a que tinha direito como professor na London Anglia
University.
“Eu
a perdi”, contou. “Ou melhor, a reitoria cassou a
complementação, depois que liderei uma passeata
de protesto na universidade contra a morte do seu patrício
brasileiro, Jean Charles, morto a tiros pela polícia. Acontece
que um dos inspetores chefes da Scotland Yard é irmão
do reitor e a represália veio em seguida. Como não
podiam me demitir, proibiram a complementação da
aposentadoria”.
Fiquei
estupefato com o que só pode ser definido como iniquidade
e a mais mesquinha das represálias. Mais surpreendente
ainda, na civilizada Inglaterra. Quer dizer, quantas coisas mais
teriam vindo (e virão ainda) no rastro da impunidade pela
morte de Jean Charles? (continua) |