A tal crise me atacou também

Foi só quando acordei no hotel pobrezinho de Ouro Preto que dei por mim que a tal crise econômica é feia mesmo. Até então, tinha percebido só uma queda pequena no meu faturamento. Mas no mês passado, no tal hotel, e em pleno Carnaval, quando em outros tempos eu me esbaldava no exterior, gastando pacas e comendo do bom e do melhor, vi que a coisa ficou mesmo preta.

Meu acompanhante não era mais o senador que todos os anos sem falhar me levava para lugares de luxo lá fora e me enchia de presentes. O senador dançou, foi acusado de corrupto e tratou de se esconder, e assim perdi um cliente de primeira linha, que além de tudo dizia que eu era a mulher da vida dele. Acho que nunca mais vou achar outro igual . Estou rezando para que, passado o sufoco em que o senador se meteu, volte a me procurar.

Então, voltando ao hotelzinho em Ouro Preto, fiquei imaginando que a gente dança de acordo com a música, é ou não é? Meu acompanhante, um deputado conhecido, e cheio da grana, mas unha-de-fome na hora de gastar, me conheceu há muito tempo, durante uma festança em Brasília, e veio com o papo de que eu era a mulher da sua vida, igual à conversa do senador, que por sinal é muito amigo dele. Já viram, né?

Meu deputado é cara legal, boa companhia, um tigrão na cama e me convenceu a passar o Carnaval com ele, pois a mulher, advogada famosa, tinha ido pro exterior com os filhos. Mesmo que eu tivesse convites melhores (e eu não tinha nenhum nessa crise) teria ido com ele para Ouro Preto.

Mas, que diabo, ele poderia ter arranjado um hotel melhor.