| Sou
grande admiradora dos desfiles de modas e das lindas brasileirinhas,
de fama internacional. Depois das minhas novelas, desfile é
a coisa que eu mais gosto. Eu não sabia desse sucesso das
nossas moças das passarelas e as leitoras têm de
me perdoar, pois sou da terceira idade e, como dizem, o tempo
não para e a memória também, que vai se apagando,
não é mesmo?
São
tantas as modelos que aparecem quase todo dia no Brasil que a
gente acaba acreditando que isto aqui é o paraíso
das mulheres bonitas, elegantes e com glamour de sobra, mais do
que qualquer outro país do mundo. Não recordo como
se chamam, nem mesmo a mais famosa de todas, aquela que tem um
nome alemão complicado. Mas eu estou falando disso hoje
porque a semana passada, vendo um desfile na televisão,
me lembrei da minha querida amiga, já falecida, Hortênsia.
Séculos atrás (desculpem, foi nos anos 50, mas parece
lá longe no passado) ela foi modelo, e bastante promissora.
Hortênsia
era alta, morena de cabelos negros e olhos verdes, muito linda
mesmo, e os rapazes caíam aos pés dela, como se
dizia naqueles tempos. Ela começou desfilando com os vestidos
de uma loja de modas que tinha na minha cidade, e foi subindo
e subindo rapidamente. E poderia ir mais longe ainda, mas então,
uma coisa aconteceu.
Aquela
época não era como hoje, tudo livre, tudo natural.
Nem pensar! Os preconceitos eram muitos, feios e ridículos.
Ainda mais se uma moça de boa família quisesse seguir
a carreira de modelo. Nossa Senhora, o mundo vinha abaixo! Foi
o que aconteceu com a minha amiga.
Apareceu
um dia em Petrópolis um industrial do Rio, que conheceu
Hortênsia numa festa, e ofereceu a ela uma fortuna naquele
tempo para usar na passarela os maiôs que ele fabricava.
Hortênsia ficou entusiasmada, não só com o
dinheiro, mas também porque o desfile ia percorrer todo
o Brasil e, talvez, o exterior também. Era a maior chance
da sua jovem carreira.
Então,
quando o pai soube dos maiôs, e atiçado pelo namorado
dela, gritou um grande “Não, de jeito nenhum, filha
minha não vai se envolver nessas coisas suspeitas”,
e todas aquelas tolices de gente preconceituosa. Se Hortênsia
tivesse sido mais decidida, mais corajosa, teria ido em frente.
Mas tinha só 17 anos, era dócil e meiga, e não
ousou contestar o pai. E foi assim que uma promissora carreira
de modelo morreu antes de começar.
Hortênsia
casou com um homem rico da cidade, teve quatro filhos, virou dona
de casa e pouco antes de morrer, aos 54 anos, me confidenciou
que durante meses e meses chorava escondida por não ter
sido modelo. |