Folião de outrora diz
que carnaval de hoje
é só sexo e exploração!!

Por Tony Kixadá
agitador cultural

José Hermínio Galiotti, de 79 anos, contador aposentado, viúvo e “folião até morrer”, como gosta de dizer, garante que vai pular até cair neste carnaval e mais uma vez dar canseira em gente muito mais jovem que ele.

“Estou na folia há setenta anos, sem faltar um só carnaval, desde que eu era um moleque de oito anos e minha mãe saía correndo atrás de mim para eu não fugir de casa vestido de mulher e pular até de madrugada no baile que tinha na pracinha da minha cidade”, ele relembra.

Galiotti se apressa em explicar que o “vestido de mulher” não quer dizer o que é hoje, “essa pouca vergonha que não tem tamanho, mas um quebra-galho que os meninos pobres da época usavam, aproveitando roupa velha da mãe ou da irmã, enfiando uma meia de mulher na cara pra ninguém reconhecer, e sair pregando peça em todo mundo”.

“Coisa de moleque travesso, mas como era divertido”, diz. “Uma vez fomos a um grito de carnaval longe de casa e dei de cara com a minha tia, que era casada, pulando agarrada com o farmacêutico. Não contei pra ninguém, mas ela pagou o cinema pra mim por quase um ano. Só para eu ficar calado”.

Cowboy folião

Os anos fizeram mudanças radicais nos hábitos dos carnavalescos, que ele não aceita, como bom saudosista e moralista, embora negue.Ele explica:

“Não quero dar uma de santinho, mas o carnaval de agora não é coisa para pessoas de família como eu. Virou tudo uma pouca vergonha. No meu tempo, eram lindas fantasias nas ruas, femininas e masculinas. Todo mundo era respeitoso e cordial. Para você ter idéia, nos bailes do meu clube, não se dançava agarrado como atualmente. Quem agarrava a dama, era chamado atenção pelo que a gente conhecia como “fiscal de salão”. Hoje, não sei mais como reconhecer as pessoas. É homem vestido de mulher, mulher vestida de homem, e o pior é que o carnaval dessa gente dura o ano inteiro. Eles estão sempre fantasiados pelas ruas. Todo mundo quer aparecer de qualquer jeito. É só sexo e exploração”.

Galiotti explica que há muitos anos não se veste mais de mulher para cair na folia. “Isso era coisa de garoto, hoje eu me divirto com a cara limpa mesmo. E com essa minha fachada de velho sem-vergonha não preciso de fantasia nem de máscara, é ou não é?”

Para manter a tradição de bom folião, ele vai até o quarto e volta com um lenço no pescoço e um chapéu de cowboy do cinema, dizendo que vai se divertir assim numa homenagem ao seu ídolo, um mocinho dos velhos tempos de Hollywood, chamado Johnny Mack Brown.

“No carnaval de1956 usei um chapéu que era o mesmo que o Johnny usava nos filmes. Eu tinha 26 anos, era um galã bonito e disputado pelas mulheres. Você pode ver como eu era nesta foto aqui. E sabe quem é a moça aí comigo? A minha futura esposa, que eu conquistei só com um sorriso”.