Meus tempos de voleibolista

Apesar da idade, acabei vendo muitas partidas das Olimpíadas, que passavam na televisão num horário terrível, durante a madrugada, quando idosas como eu ainda estão dormindo ou começando a pegar no sono. A maioria das disputas envolvia nossos atletas, que não fizeram tão feio como andam dizendo.

É óbvio que eu vibrei mais que tudo com a vitória das moças do vôlei. Além da medalha de ouro, eu tinha outro motivo. Na minha juventude (oh, Santa Emiliana, como faz tempo!) fui uma razoável jogadora, que então chamavam de “voleibolista”. O nome é horrível, eu sei, mas ninguém ligava para isso, a gente queria era praticar esporte e também, por que não?, ficar de olho nos rapazes, e eles na gente.

Os calções que as moças usavam eram grandões, pareciam umas bombachas, mas ainda mostravam boas partes das pernas. Só de brincadeira, fiquei imaginando durante a Olimpíada o que aconteceria se, naqueles tempos da minha adolescência, a gente usasse os shortinhos de hoje, apertados, até mesmo “pecaminosos”, mostrando as pernas todas e muito, muito mais. Seria um escândalo, e acho que podia até dar cadeia, Deus que me perdoe.

Jamais esqueci o que aconteceu uma tarde, no longínquo ano de 1954, foi inusitado, sempre vou me lembrar. Nossas voleibolistas eram craques, o time estava em primeiro lugar no campeonato escolar, e tinha cada pequena do balacobaco. Muitos rapazes apareciam só pra ver nossas pernas.

Então, sempre de olho neles também, além da bola, naturalmente, percebi que em todas as partidas nossas tinha um rapagão bonito, sentado sempre na primeira arquibancada, colado na quadra. Acabei descobrindo que eu era o alvo dos olhares dele, imaginem só.

Quando a gente tem 18 anos, imagina coisas, algumas românticas, outras que nem ouso contar aqui. Até que numa noite, depois que nosso time venceu o campeonato escolar, vi que o “pedaço de mau caminho” vinha na minha direção. Tratei de enxugar o suor, ajeitei o cabelo e pensei no melhor e, cá pra nós, também no “pior”. Quem sabe um convite para o cinema, um passeio, coisas assim, que acabam sendo o começo de um namoro e, com sorte, noivado e casamento?

Ele chegou bem perto de mim, me olhando bem nos olhos, era muito mais bonito do que eu pensei. Estendeu a mão, se apresentou e lascou a frase terrível: “Prazer, já vi que você é grande jogadora. Eu sou marido da Elizinha, sua amiga, e queria saber se gostaria de mudar e entrar para o nosso time de vôlei”.

Só não abandonei o esporte porque gostava muito, mas até hoje relembro com saudade meus tempos de voleibolista.