| Um
querido amigo, daqueles que, além de tudo, adoram cinema,
o bom cinema, longe das drogas de Hollywood, voltou da Europa
e me trouxe de presente três DVDs que não se encontram
por aqui, e com certeza muito menos nos Estados Unidos, mercado
de filmes imenso, bilionário e medíocre.
Um
deles é a obra maior do diretor croata Anatol Kiseo, a
delicada e incisiva comédia de costumes “Mehur Topao”,
que vi três anos atrás em Budapeste, com o título
“O Vale dos Tristes Amores Eternamente Perdidos”.
E agora chega por fim à minha coleção das
grandes obras-primas da cinematografia mundial.
O
segundo é também obra de exceção,
“Tjiriti”, do indonésio Djelék Pipi,
que mostra em imagens secas, duras, assombrosas, um episódio
ocorrido durante a última guerra mundial num pequeno lugarejo
perdido na floresta. Para se ter idéia da mestria de Djelék,
não há tempo de se cansar durante as quase cinco
horas e meia que dura o filme,tamanha a sua vibração
e ritmo.
Por
fim, o melhor do lote, cuja importância pode ser avaliada
pelas 24 páginas a ele dedicadas pela revista francesa
Filmsottise, na sua edição anual de 1981.
Trata-se do grande e inesquecível drama finlandês
“Paistettu Kala”, feito por um gigante esquecido da
sétima arte, Muna Kokkeli, que morreria aos 23 anos, cinco
dias após terminar o filme.
O
mais revelador e ofensivo, que até hoje deixa indignada
a intelligentsia internacional, é que “Paistettu
Kala” concorria ao Leão de Ouro no Festival de Veneza,
em 1980, e era a escolha unânime de jornalistas, diretores,
atores e público para o primeiro prêmio.
Então,
aconteceu a patifaria de sempre, a velha trama made in
USA, que mexeu os pauzinhos, a corrupção
e o suborno, e o resultado foi que esta obra maravilhosa acabou
em quinto lugar e o vencedor foi “Gloria”, produto
menor da decadência americana, mostrando o mundo do crime,
da miséria e da violência em Nova York, típicos
dessa sociedade capitalista em decomposição.
Apesar
da indignação mundial, tudo isso serviu para exaltar
ainda mais as qualidades do filme finlandês, hoje rara peça
de colecionador, que me enche de orgulho e, de inveja, os vendilhões
de Hollywood.
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