| As
emoções e frustrações das Olimpíadas
terminaram, mas não posso perder a oportunidade de relembrar
um episódio ocorrido nos Jogos de Atenas, na Grécia,
quatro anos atrás. Os personagens são três:
o grande e saudoso intelectual Dimitrios Lamptiras, sua linda
mulher, Melina, e eu.
Na
ocasião, eu procurava na capital grega informação
e inspiração para meu 15º livro, sobre a Ilha
de Lesbos, e fui visitar Lamptiras, um velho amigo, em sua secular
mansão no alto de uma colina, de onde se tem uma vista
maravilhosa do Templo de Zeus.
O
assunto dominante na cidade e em todo o país eram, naturalmente,
as Olimpíadas e eu, que não gosto de esportes de
espécie alguma, não podia ficar indiferente. Então,
após o jantar, levantei o assunto, arriscando algumas frases
de efeito, uma delas baseada em artigo que acabara de ler em um
diário ateniense sobre um caso ocorrido muitos anos antes,
nas Olimpíadas de Tóquio, em 64.
Um
certo Eumenides Psilos, filho de importante milionário
ateniense, que enriquecera fabricando navios petroleiros, era
conhecido esportista e se inscreveu na equipe grega para ir a
Tóquio como lançador de dardos. E, surpresa, tirou
o primeiro lugar e uma medalha de ouro.
A
conquista causou comoção em toda a Grécia.
Então, não se sabe de onde, surgiu uma denúncia,
acusando Eumenides de trapaceiro. Ele fez trapaça com a
idade, que aumentou, com o peso, que diminuiu e com falsas conquistas
esportivas anteriores, que nunca houve. Resultado: ele acabou
desclassificado pelo comitê olímpico. Uma vergonha
para a Grécia.
Até
eu, que não sou grego, fiquei indignado com as patifarias
de Eumenides, e aproveitei para discorrer sobre o assunto durante
o jantar. Terminei o papo, já bastante enlevado com o maravilhoso
vinho servido pelo meu anfitrião, e disse que o homem era
uma mancha negra no esporte de seu país, um safado e outro
palavrão que não reproduzo aqui.
Achei
que tinha causado boa impressão no casal com meu conhecimento,
até que olhei para o rosto de Melina, que estava lívida,
branca, sem ação. Ela disse: “Eumenides era
meu pai, que nunca se recuperou da acusação, que
por sinal era falsa. Pouco depois, ele se matou”.
Foi a minha vez de ficar branco, gelado, sem ação.
Esperei alguns minutos, inventei uma desculpa e fui embora, com
a cara no chão. Nunca mais quis saber de olimpíada.
É por essas e outras que detesto esporte.
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