No meu tempo não era assim

Eu não queria escrever esta coluna porque, nesta altura da minha vida, nada tenho a dizer e os leitores, com certeza, não têm nada a me oferecer. No passado, escrevi muito, contos, poesias e alguns artigos para revistas e jornais. Sem falar em 25 anos horríveis como professora, quando tive contato com algumas das pessoas mais desagradáveis e analfabetas da face da Terra.

Já me decidira a não voltar a escrever, mas minha neta, muito chata e insistente, namora alguém aí do jornal que pediu para eu fazer esta coluna. O que ela queria mesmo era ficar com o dinheiro da colaboração para comprar um troço chamado aipode, que não sei como se escreve e não tenho a menor idéia para que serve. Deve ser uma dessas imbecilidades mecânicas inúteis com que a juventude desperdiça seu tempo e faz a mente ficar ainda menor do que já é.

Pobre juventude de hoje. No meu tempo não era assim. Ai de mim se meu pai me pegasse gastando dinheiro com bobagens! Era castigo pesado, como no dia em que comprei um disco de música, e ele me pegou na porta, arrancou da minha mão e pisou em cima. Fiquei cinco dias presa em casa, e só saía para a escola, e olhe lá. Ele achou um desperdício imenso comprar aquilo.

“Muito bem, vocês querem ir ao cinema? Eu deixo, mas o que é que me dão em troca?”, era o credo do meu pai, um homem rígido, mas justo. Às vezes ele me dava medo, mas hoje vejo que tinha lá sua razão. As lições ficaram para sempre em minha cabeça. Lições dentro e fora da cabeça também. E como doíam.

Quando vejo essa imbecilizada meninada atual, estragada pelos pais, que compram tudo, sem exigir nada em troca, fico chocada e envergonhada da educação errada que recebem. Me lembra uma vizinha cretina, que me atormenta há vários anos. Mas eu me vingo. Qualquer dia vou escrever sobre ela e contar os podres que eu sei.

Eu casei muito tarde, pois não meu tempo não tinha estas liberdades, verdadeiras indecências, se querem saber. Meu namorado levou pelo menos cinco anos pra tomar coragem e pedir minha mão ao meu pai. Por fim, teve sucesso. Mas não tive sorte, pois meu marido morreu do coração dois anos depois.

Foi uma infelicidade, mas hoje vejo que foi melhor assim. Fiquei viúva e sem filhos. Imagine se eu tivesse uma filha ou um filho. Eu ia educá-los como meu pai me criou, na dureza e na disciplina. Com certeza seriam bem melhores, mais educados e mais civilizados que esta juventude estragada e inútil de hoje. Mas quem se importa com tudo isso?

Outra coisa: se o leitor não gostar desta minha coluna, dane-se!