| Billy
Lima, criador e coordenador desta coluna, é cantor,
compositor, escritor, cineasta, poeta repentista e conhece como
poucos os bastidores do show business nacional e internacional.
Ele apresenta hoje o depoimento da cortadora de cana Tatiana
Auxiliadora dos Santos, 17 anos, de Penápolis,
São Paulo.
Só
quem passa quase o dia inteiro cortando cana é que sabe
como a nossa vida é dura. Uma vez, o patrão não
tinha luva pra gente cortar e colhemos assim mesmo, e foi um estrago
só na mão da gente. Minha prima Maria José
teve até de baixar enfermaria e ficou quase uma semana
sem trabalhar com a mão toda escalavrada e os homens não
queriam pagar, mas acabaram pagando.
Um dia, apareceu um monte de gente no nosso canavial e eu logo
vi que era pessoal da televisão, mostrando como se cortava
e colhia cana e também como fazia álcool pra botar
nos carros.
Pela primeira vez na vida eu vi a cara do dono do canavial, seu
Josemar, que vinha com o capataz, o Florêncio, e ele ia
explicando pra televisão como funcionava o nosso trabalho.
Então, o repórter da televisão me chamou
pra ficar junto do seu Josemar e ele começou explicando
tudo pra cortar cana, e me pediu pra eu cortar umas pra mostrar
como era. Ele conversava comigo e o fotógrafo da televisão
ia me filmando.
Fiquei assustada e vermelha que nem um pimentão, porque
minha roupa era velha e remendada, e aí um dos homens da
televisão chegou pra mim e me deu uma nota de 50 reais.
Meu Deus, que dinheirão, e sem fazer nada.
De
noite, o seu Florêncio me avisou que eu ia aparecer no jornal
da televisão.
Juntou um monte de gente lá em casa e quando eu apareci
ficaram gritando e batendo palma. Minha nossa, foi só um
pouco que eu fiquei na televisão, mas bastou pra todo mundo
me ver.
A coisa foi cinco meses atrás, mas sempre que vou pro canavial
com a minha gente, eles brincam comigo e me chamam de “atriz
da televisão”. |