A corrupção no picadeiro

A corrupção anda cada vez mais braba por aqui e me fez lembrar um velho amigo meu, o Gervásio Cunha, que nos anos 70 foi um dos melhores palhaços brasileiros, com o nome de Espoleta. Ele criou outro dia uma frase em cima da pinta: “Esses políticos estão querendo roubar nosso trabalho de palhaço. A sorte nossa é que eles não têm graça nenhuma”.

Todo dia me lembro dessa frase, lendo os jornais e vendo as notícias da televisão. Parece que não passa uma semana sem explodir um escândalo,uma acusação de roubo,um desfalque, um trambique, no governo e fora dele, e os que não estão lá em cima em Brasília, estão ligados a alguém do poder. Esses marginais, e não tem outro nome para eles, raramente vão presos, e quando vão, ficam pouco tempo nas grades, pois os padrinhos deles são fortes.

Falando em corrupção, me lembrei dum caso acontecido muitos anos atrás, no saudoso Circo Big Show, em Juiz de Fora, lá nas bandas da minha querida Minas Gerais.

Eu era um aprendiz de palhaço com 19 anos e entrava em cena antes do show principal, que tinha dois dos maiores palhaços que o circo já teve, Urtiga e Buscapé. Eu fazia umas piruetas numa bicicleta, coisa meio boba, mas a criançada e até alguns adultos gostavam, e aí é que eu caprichava mesmo. Uma noite,bem no meio do meu número, de repente o alto-falante anunciou a chegada do prefeito da cidade.

Quem falava era o dono do circo, um fazendeiro rico e antigo vereador, que diziam ter roubado o que quis dos donos dos ônibus da cidade, e gostava de bajular os poderosos e corruptos. Mas pra quê? Bem feito, a cara dele ia cair no chão em seguida.

Mal ele disse o nome do prefeito e o circo veio abaixo, com a maior vaia que eu já vi na minha vida até hoje. Depois, centenas de pessoas começaram a gritar “Ladrão! Ladrão!”, num vexame de fazer dó. O prefeito ficou lá quietinho no seu canto.

Valeu a pena a vaia, pois na eleição seguinte ele perdeu todas, não elegeu nem um dos seus cupinchas. Mas isso foi uns 50 anos atrás, quando não tinha tanta corrupção assim e o povo ainda reagia, lutava e enfrentava os ladrões. É aí que eu volto à frase do meu amigo Espoleta: “Esses políticos estão querendo roubar nosso trabalho de palhaço. A sorte nossa é que eles não têm graça nenhuma”.