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tenha minhas recaídas culturais e de extrema sofisticação,
não me considero uma mulher odiosa, como alguns críticos
e desafetos me acusam. Mas outro dia lamentei a ousadia de passear
pela manhã numa feira-livre próxima da rua onde
moro.
A feira está lá há vários anos e nunca
a visitei, mas nesse dia eu ia oferecer um jantar para amigos
meus dos Estados Unidos e decidi procurar algo nativo, ou mesmo
esquisito para surpreender meus convivas. Uma péssima idéia,
vocês vão logo saber.
Escolhi a barraca e o feirante que me pareceram mais asseados
e civilizados, e também porque oferecia a maior diversidade
de legumes, verduras e frutas.Havia lá coisas bastante
exóticas, das quais nunca tinha ouvido falar. Fiz questão
de anotar os nomes em minha agenda.Kiabo, almeiral, ou algo assim,
mandioquinha, jilo, ou giló, sei lá, e vários
outros muito, muito estranhos.
Depois
de perguntar sobre as características de um por um, percebi
que o feirante estava perdendo o humor. Embora brasileira de Petrópolis,
vivi muitos anos no exterior e cheguei a manter um sotaque inglês
que deve ter irritado o pobre diabo da feira. Quando passei a
indagar sobre as frutas, não menos exóticas que
os legumes e verduras, ele explodiu, com a ira característica
dos iletrados e suburbanos.
“Olha
aqui, a senhora está me aborrecendo há mais de meia
hora, querendo saber disso e daquilo. Não comprou nada
e já vi que não vai comprar”, reclamou. “Já
torrou a minha paciência, portanto, vai...”, e soltou
um horrendo insulto que me fez perder a fala.
Demorou alguns minutos para me recuperar do choque. Saí
indignada e prometi passar outros anos sem pisar nessa feira de
plebe mal-educada. Quanto aos meus convidados, preferi levá-los
para jantar num restaurante sofisticado da zona sul, onde não
há feirantes nem grosseirões.
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