| Alguns
leitores desavisados, e muitos deles mal-intencionados, me acusam
freqüentemente de antiamericanismo por causa das duras críticas
que faço ao lixo que Hollywood atira nas telas do mundo
inteiro.
Acusações infundadas e injustas, já se sabe.
Mas quem não vê a assustadora maioria de produções
americanas lançadas em nossos cinemas esmagando a de outros
países, com filmes muito, muito superiores, que raramente
veremos por força do poderoso lobby dos nossos chamados
“irmãos do Norte”?
Esse
lamentável estado de coisas ficou outra vez patente durante
a conversa que tive outro dia com Pieroantonio Contadino, nosso
principal distribuidor de filmes de arte. Ele me revelou que tem
prontos para lançamento, já devidamente dublados
para o português (bravo, vamos prestigiar nossos brilhantes
dubladores!) nada menos que 34 verdadeiras obras de arte da Croácia,
Paquistão, Burkina Faso, Irã, Mongólia e
Indonésia.
Contadino,
que ao contrário de outros distribuidores assiste mesmo
a seus filmes de ponta a ponta, me disse que, pelos menos 28 deles
são obras-primas indiscutíveis, com o aval de toda
a brilhante e invencível crítica francesa.
E cita três dos seus prediletos: “Sougou, Sougou”,
iraniano, já com o título português de “Sonhos,
Sonhos, Mas o Pesadelo Me Atormenta”; o indonésio
“Djelék Ajam Belanda” (Sou Camponês Pobre,
Mas Sonho Com Uma Vida Mais Digna Para Mim e Minha Família)
e o croata “Puran Bolestan” (Com a Paz, Nossos Campos
Terão Mais Flores e Mais Crianças Felizes).
Este
último, segundo Contadino, o faz chorar sempre, com a simples
menção do seu título.O depoimento de um homem
de cultura, amante do verdadeiro cinema de arte, contestador e
revolucionário, é um vibrante e patético
exemplo de como as manifestações de alto nível
que vêm do exterior são tratadas em nosso pobre país.
Mas o que fazer, quando o pobre e manipulado público brasileiro
lota os cinemas para ver o lixo made in USA?
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