| Meus
pacientes leitores que me perdoem, mas não há como
fugir do Carnaval, mesmo não sendo eu um apreciador daquilo
que no meu tempo se chamava de “folguedos de Momo”.
De vez em quando arrisco uma olhadinha naqueles belos desfiles
de escolas de samba que os cariocas fazem tão bem. Mas
meus 78 anos já não me permitem ficar acordado até
de madrugada, menos ainda até pela manhã, que é
quando os desfiles se encerram, segundo me contam.
Acontece que o nosso editor, Castor Jr., me mandou um recadinho
muito simpático e educado, me pedindo para escrever a coluna
com alguma coisa carnavalesca. E quem sou eu para recusar, caros
amigos?
Então vou relembrar um episódio ocorrido lá
nos confins do passado, quando eu era um garnisé com 18
anos. Tenho certeza que os leitores estão estranhando esse
termo, “garnisé”, mas para explicar eu olhei
no dicionário e está escrito lá que é
um galináceo e também pessoa de estatura pequena,
arrogante e brigona.
Sem brincadeira, parece até que o autor do dicionário
me conheceu naquela época e me definiu exatamente como
eu era, um baixinho enfezado e criador de caso, como se diz hoje
em dia.
Pois muito bem, era terça-feira de Carnaval e eu e dois
amigos cismamos de entrar no baile mais conhecido de Juiz de Fora,
o do Sport Clube, só que não tínhamos um
tostão no bolso. Aí o pai de um amigo meu, que era
porteiro lá, me viu e perguntou se eu queria entrar no
baile de graça. Claro que eu queria. Ele então me
explicou que meninos e meninas até 18 anos poderiam entrar
sem pagar se acompanhados pelos pais.
Fiquei tramando o que fazer, procurando um jeito de entrar. Não
demorou muito e achei a resposta. Lá atrás vinha
vindo um casal de braços dados, eu entrei na frente dos
dois, cheguei até entrada e disse para o porteiro, “Vem
aí atrás”. Pra minha surpresa, ele acreditou
e me deixou passar.
Mas então aconteceu o pior. O porteiro não era bobo
nem nada, desconfiou de alguma coisa e perguntou ao casal, assim
mesmo: “Esse garnisé aí é filho de
vocês?” Claro que não, disseram.
Não deu outra: me pegaram pelo braço e me botaram
pra fora, pra minha desgraça e vexame. Meu amigo ria para
valer, e eu, vermelho de vergonha e raiva. Então, disse
algo que me fez esquecer todo o vexame: “Vamos embora, garnisé,
a gente acha outro baile”.
Comecei a rir, pois com 18 anos a gente ri de tudo, e foi assim
que eu soube, da pior maneira possível, o que era um garnisé.
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