Minha velha cisma com o mar

Este ano fui convidada por uma grande empresa internacional para reunir um grupo de garotas e sair navegando num iate com um bando de milionários daqui e de fora. O contrato começa na véspera do Natal e vai até a passagem do ano.

Se não fosse o pagamento de alto nível, pra mim e pras meninas, eu teria recusado, pois já passei muito aperto no mar, dentro dele, na praia, navegando, o diabo.

Meio desconfiada, consultei um velho amigo economista, que já foi gente importante em Brasília, pra dizer o que achava do convite. Mesmo com todo o pagamento adiantado, depositado em dinheiro vivo no banco, fiquei cabrera.

Esse amigo, meu ex-namorado escondido, pois é casado, me explicou naquele papo de gente que mexe com as finanças, que o pagamento valia a pena e que a economia brasileira anda bombando, o dinheiro está rolando pra valer, e que a tal empresa internacional é das maiores do mundo.

Claro que acabou me convencendo a aceitar, mas continuo com o pé atrás, acho que tem alguma coisa mal explicada aí. Pode ser cisma minha, uma bobagem, mas já passei um grande sufoco uma vez, e por coincidência nesta mesma época.

Na ocasião eu andava de amores com um senador, figura importante e pilantra como ele só. Ele mentia pra mulher dizendo que tinha que ir numa missão importante no exterior e me convidava pra uma semana na casa de praia que tinha em Búzios. Pois é, nós estávamos numa boa uma noite juntos na rede, quando ele viu entrando pela sala a mulher enfurecida, que pelo jeito tinha deixado de ser trouxa e foi atrás dele e pegou a gente no pulo.

Foi só quando ouvi um estampido de revólver que acordei da surpresa e saí correndo feito uma louca. Não sei como, mas dei um mergulho por cima do murinho de pedra e fui cair na praia, bem de cabeça numa garrafa. Resultado, levei 12 pontos na testa. Não sei nem quero saber como o senador se virou com a mulher.

O susto valeu, e até hoje tenho medo de praia e de mar. Por isso que estou cismada com a viagem este ano no iate dos ricaços. Se não fosse pela nota alta, juro que não ia.