| Constância,
minha amiga mais antiga, tem 85 anos muito bem vividos, pois na
juventude foi desde cantora de orquestra até professora
de deficientes auditivos, sem falar de tantas outras coisas pelo
caminho, que nunca me contou, mas eu imagino.
Ela costuma me criticar por eu me ligar muito no passado, cavando
lembranças, saudades, essas coisas todas que os idosos
cultivam.
Eu respondo, meio de brincadeira, meio zangada: “Você
quer que eu me ligue em quê, além do passado? No
futuro? Na minha idade?”
E ela retruca: “Não seja infantil. Ligue-se no presente,
Santinha, deixe o passado para a gente lembrar mais tarde”.
Viram só? Isso é que é vitalidade, com 85
anos e aconselhando para eu me lembrar mais tarde. Pelo que conheço
do espírito da Constância, ela vai chegar aos 100,
e talvez bem mais.
Apesar
dos conselhos da minha querida amiga, volto a falar do passado
nesta minha ultima coluna do ano, em que, bem no Natal, eu fico
um ano mais velha, não tanto quanto a Constância,
porém um ano a mais.
Pois bem, 40 anos atrás eu era o que os jovens chamam hoje
de “coroa”, mas parecendo bem menos que a minha idade,
34. Era noite na véspera de Natal e eu andava pelas ruas
iluminadas de Petrópolis, onde morei muitos anos e morro
de saudade até hoje.
Então, ouvi alguém gritar meu nome.
“Santinha,
hei, Santinha! Não fala mais com os pobres?”
Olhei
pra trás e só vi um Papai Noel, mais ninguém
perto. Continuei andando e me chamaram outra vez: “Santinha,
não se lembra mais dos amigos?”
Só então descobri que era o Papai Noel. Ele se aproximou,
e eu nunca tinha visto um Papai Noel tão avacalhado, com
a roupa remendada, manchada e desbotada de muitos anos de uso.
Quando
chegou perto e baixou a barba postiça, quase dei um grito
de surpresa, uma surpresa ruim. Era o Ciro, um amigo antigo, mais
do que isso, foi meu namorado por alguns meses, até viajar,
dizendo que ia tentar a vida em São Paulo. Nunca mais voltou.
Naquela
noite, tanto tempo atrás, passei meu Natal mais triste.
Ciro estava envelhecido, quase calvo e, pior, cheirava a bebida.
Quis me contar mais da sua vida, mas o homem que o contratou chamou
por ele, disse que tinha umas crianças na loja querendo
ver o Papai Noel.
Ele
deu um adeus com mão, trocando passos por causa da bebida,
a cara triste e desanimada. E eu também. Foi a última
vez que o vi. Às vezes a Constância tem razão.
É melhor deixar o passado pra trás.
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