Palestras e interferências

Mensalmente faço palestras em universidades e escolas por todo o Brasil, e encontro sempre surpresas boas, más e péssimas. Jamais são ótimas. Na última delas, numa universidade no interior de Minas Gerais, cujo nome não declino por questão de ética, o próprio reitor me interpelou, durante um debate com o auditório lotado, em que eu falava sobre a evolução das espécies.

Ele se levantou, pediu para falar e disse, para espanto geral: “Doutor Cult, contesto sua explanação. Se até mesmo a existência de Adão e Eva não passa de lenda, como justificar a evolução a partir dos símios, como o senhor parece defender?”

Passada a surpresa, e após algumas manifestações ruidosas contra o reitor, preferi mudar de assunto a me envolver com o homem, que parecia zangado quando me interrompeu. Além disso, era ele que me pagava.

Em outra palestra, esta em São Paulo, os alunos de um curso avançado de inglês pediram-me para falar sobre as peças de Shakespeare, que conheço profundamente. Estava eu nas palavras iniciais de “Seven Ages of Men”, que diz, “All the world’s a stage and all the men and women merely players”…, quando uma senhora de seus 50 e poucos anos levantou a mão, pediu para falar e atacou: “Mr Cult, já foi sobejamente provado que essas palavras, o enunciado e o estilo são típicos de Francis Bacon, jamais de Shakespeare, que como ninguém ignora, tem sua verdadeira existência contestada”.

Desconversei, mudei de assunto, só para não ter que mergulhar num embate inócuo com a senhora.

Essas interferências do publico em minhas palestras seriam proveitosas e estimulantes se tivessem como embasamento algum conhecimento mais profundo. Mas não, a grande maioria é só bobagem.

Então, certa vez, antes de começar a discorrer sobre “Poesia latino-americana pré-Pablo Neruda”, resolvi fazer uma brincadeira e anunciei para o auditório lotado que iria falar sobre “A Influência do Reco-reco nos Ritmos Aborígenes”.

Mal terminei a última palavra e não uma, mas sete pessoas da platéia, levantaram as mãos freneticamente, querendo interferir. Mais que depressa, disse que estava brincando e mudei de assunto.
Ah o público inculto...