Morre papagaio que não
gostava de políticos e
era atração em Brasília


Por Gaudêncio Martins
editor de editorial

O muito falante papagaio conhecido como Congressinho, que todos os dias levava dezenas e dezenas de fregueses ao Bar do Eleitor, na cidade satélite de Taquatinga, morreu a semana passada. Segundo seu dono, Inocêncio de Souza, o papagaio tinha 15 anos e a morte foi de causa desconhecida, embora Souza diga que é coisa suspeita, pois o bicho sempre teve ótima saúde.

“Não afasto a hipótese dele ter sido envenenado, por pura maldade de alguém, ou então por algum político ressentido”, ele afirma.

Brincalhão e irônico, Congressinho tinha reações certas. Se alguém se aproximasse dele e gritasse, “Lá vem um político!”, o papagaio logo gritava, “Chame a polícia! Chame a polícia”. Ou então, “Quanta mulher bonita no bar!”, ele respondia: “Leva pra cama, leva pra cama”.

Segundo Souza, o papagaio reconhecia de imediato mais de 100 fregueses e sabia o nome de 67 políticos, senadores e deputados. Quando se dizia alto o nome da maioria deles, gritava palavrões impublicáveis, o que fazia as delícias dos freqüentadores do bar.

Ninguém sabia explicar por que Congressinho reagia com simpatia a alguns nomes e com raiva a outros. Bastava falar o nome de um conhecido senador e ele soltava uma série de palavrões, que só paravam quando se dizia que o político já tinha ido embora.

Voz da oposição

O papagaio era a maior atração em Taguatinga e mereceu do SacolãoBrasil (edição 42) uma reportagem que ajudou a levar ainda mais gente ao Bar do Eleitor, que tinha aos sábados sua maior freqüência, todos querendo ver e provocar Congressinho.

Paulo Simão Lage, um dos fregueses mais assíduos, acha que o papagaio era superdotado e tinha até algo de sobrenatural. “Fiz vários testes, citando nomes de políticos e ele parecia saber quem era sério e honesto e merecia elogios;outros, reconhecidamente desonestos, tinham toda a antipatia dele. Uma coisa incrível mesmo”, afirma Lage.
Para o jornalista Pasqual Lorentino, velho freqüentador do bar e o que mais conversava com o papagaio, sua morte vai deixar saudade em todos. Comentarista político num diário local, ele vai além e interpreta com mais seriedade o conhecimento político de Congressinho.

“Era algo quase sobrenatural mesmo, a percepção política dele”, afirma Lorentino.”Ele parecia saber perfeitamente quem prestava e quem não prestava entre os políticos de Brasília. Uma pena a sua morte. Não exagero e nem brinco quando digo que a nossa já tão pobre oposição perdeu uma de suas vozes mais dignas e combativas”.