Os sonhos custam caro

Fazia tempo que eu sonhava com um home theater, mas como o dinheiro andava curto, tive que esperar um bocado de tempo.No mês passado, finalmente realizei meu velho sonho. O equipamento não chega a ser topo de linha (ou, como diz a piada inspirada na turma de Brasília, “top,top,top de linha”), mas é coisa fina.

Então, logo no primeiro dia decidi ouvir alguns dos meus cds e lps prediletos, que incluem ópera, chorinhos e rumbas antigas. Não conheço rumbas modernas, mas é só para ilustrar meus leitores.

Mal sabia eu que a realização do meu sonho tinha uma ameaça pela frente, na verdade, três ameaças, e das grandes: minha filha e meu filho, ela de 17 anos, ele, 23, e minha mulher. Assim que botei no toca-disco um raro lp de Xavier Cugat, verdadeira peça de colecionador, e aumentei o volume para sentir o aparelho, veio um berro lá de dentro da cozinha: “Pai, que droga é essa aí? Pára com isso”.

Era meu filho, Fábio, lídimo representante da “geração rock-estoura-tímpano”.

Gritei de volta: “Dá pra ficar quieto, estou testando meu home theater!” E ele: “Pelo amor de Deus, vai testar lá na garagem, ou então quando eu sair”.

Em nome da harmonia familiar, abaixei quase todo o volume, e mal conseguia escutar o grande Cugat. Ouvi mal e mal o disco, esperei que meu filho fosse embora, e, com a casa vazia, só para mim e meu novo aparelho de som, botei um cd do Jacob do Bandolim com lindos chorinhos, e foi só aumentar o volume ao máximo, chega minha filha, Flora, já de nariz torcido: “Pai, que horror, que troço é esse que tá tocando?” Pra encurtar, botei baixinho a bela “Tosca”, e minha mulher, que detesta ópera, chegou do trabalho cansada e ordenou que queria silêncio.

Moral da história: estou curtindo minhas músicas no meu quarto e no modesto walkman que veio de brinde com meu espetacular home theater.