Menino que posou em anúncio de comida de
bordo relembra os bons
tempos da aviação

Por Rosa Cavatappi
do caderno Vias Aéreas

Jairo Mendes Ghiotto tinha 13 anos quando foi escolhido para fazer parte de um anúncio sobre a principal empresa aérea do Brasil nos idos de 1952. Não se tratava de um anuncio como se vê hoje, com belas fotos coloridas e todos os recursos modernos. Era um desenho, típico da época, de cores fortes e reais, de alta qualidade, feito pelo artista americano Dan Barnacle, entre os mais famosos da época. Junto com Jairo apareciam sua mãe, Alice, já falecida, e a aeromoça, uma modelo carioca.

Jairo, hoje com 68 anos, relembra: “Puxa, que refeição deliciosa era aquela que aparece no anúncio. De verdade mesmo. Levamos cinco horas posando para o desenhista,mas valeu o sacrifício, porque comemos não só o que estava na bandeja como o que trouxeram depois: chocolates, pudins, bolos e muito refrigerante. E pode acreditar, era a mesma comida que serviam nos vôos internacionais. A das viagens nacionais não era tão variada, mas ainda era digna de elogios”.

Ele conta que sua tia, nutricionista formada nos Estados Unidos, era uma das orientadoras contratadas da empresa aérea e toda a refeição de bordo era pesada, examinada, selecionada e escolhida por uma equipe de 130 pessoas, somente nos vôos que saíam do Rio para o exterior.

“Quem viaja hoje para fora, mesmo na classe executiva, vai comer uma refeição assim, assim, e olhe lá. Eu diria que tem gosto de plástico com vago sabor sofisticado, que não distinguimos qual é. Bebida é outra coisa, e não por acaso é estrangeira”.

“Pobre Brasil”

A lembrança de outros tempos e a comparação com a aviação comercial atual fazem Jairo, engenheiro aeronáutico aposentado, torcer o nariz. “Hoje, não há nem avião, quanto mais comida de bordo. Razoável só na primeira classe, assim mesmo de baixa qualidade, tudo com gosto de plástico ou sem gosto nenhum. E mesmo na primeira classe, como abrir o apetite, com todos os problemas atuais da aviação brasileira? Esse terror, essa bagunça, que nunca acaba e deixa o pobre passageiro aborrecido e assustado.”

Ele faz duras críticas ao descalabro em que se transformou os meios de transportes brasileiros:

“Primeiro foram as ferrovias, depois os navios, as estradas e agora a aviação, que os governantes conseguiram sucatar até chegar a este estado caótico. E não se iludam. Eles são de muito falar, planejar e prometer, mas nada resolvem. Pobre Brasil”.