| O
inglês Dorian Gray Stiffneck, provavelmente o maior crítico
literário da atualidade,e também exigente e mal-humorado,
fez uma rápida escala em São Paulo, em viagem para
a Terra do Fogo, onde vai estudar a flora marítima para
um futuro livro. Saí voando para o aeroporto, primeiro,
por ser grande admirador do homem, depois, para tentar (e consegui)
uma rara,e rápida, entrevista com ele, avesso a todo tipo
de autopromoção. Eis o resultado:
LB : É
um prazer conhecê-lo. Como vê a atual literatura mundial?
DGS: Vai
mal, muito mal. Com umas poucas exceções, aqui e
ali, tudo o que leio em matéria de livros, ficção
ou não, é puro lixo.
LB: Tão
mal assim? Mas não há exceção a essa
má qualidade?
DGS: O
poeta árabe Achraq Hamid, um talento supremo, o romeno
Stilou Cald, cujo romance, “Diaree”, está à
altura de Tolstoi, e o contista indonésio Gusbai, talvez
o mais injustiçado de todos os candidatos ao Nobel de literatura.
E mais um ou outro aqui e ali. E é só. A maioria
é um bando de chatos, pretensiosos e semi-alfabetizados.
LB: Mas como
o senhor explica o sucesso e as grandes vendagens de jovens e
talentosos romancistas, elogiados por críticos de respeito?
DGS: Com
raríssimas exceções, jovem romancista, crítico
e leitor são totais imbecis.
LB: Por falar
em grandes vendagens, qual a sua opinião sobre o estrondoso
sucesso da série de livros de Harry Potter?
DGS: Harry
quem?
LB: O que
acha da literatura latino-americana, especialmente a brasileira?
DGS: Existe
literatura aqui? Se existir, desconheço.
LB: Pelo
jeito, o senhor é exigente demais, e com certeza , não
gosta nem mesmo de Shakespeare.
DGS: Enfim,
uma pergunta inteligente. Gosto de Shakespeare, mas não
de tudo dele. Muitas obras são absolutamente incompreensíveis,
e os chamados intelectuais e estudiosos gostam de exaltá-lo
e citá-lo sem ter qualquer noção do que ele
está falando. |