Cidade fica sem televisão e
povo entra em desespero

Por Doralice Flamboyant
Enviada especial a Três Montes

Surpresa, espanto, choro e desespero foram algumas das reações da população da pequena e pacataTrês Montes, no interior de São Paulo, que ficou sem televisão durante dois dias por causa da queda de uma torre de energia, atingida por ventos fortes e depois por um raio.Tudo aconteceu uma semana atrás, mas até agora a população está traumatizada.

“Foi um desastre”, disse o prefeito Sandoval Limeira. “Não a torre, mas a falta de televisão.Depois do primeiro dia sem luz, sem nada, as pessoas foram pra frente da minha casa cobrar uma solução. Mas que é que eu podia fazer?”

A falta de luz foi logo resolvida com lampiões e velas, o problema foi a TV.

“A gente só descobre como é bom ver televisão depois que ela acaba”, disse Limeira.”Até meu amigo,o Belzinho, do açougue, começou a gritar no meu portão pra eu dar um jeito e consertar a televisão, que ele não agüentava mais, e a mulher dele também, porque perdeu a novela. Nunca vi coisa assim”.

Distante 570 quilômetros da cidade mais importante, Três Montes só não é totalmente isolada do resto do estado por causa da estrada esburacada e estreita que a liga ao lugarejo de Matosinhos, ainda menor.Até que a energia fosse restabelecida 49 horas se passaram, e a população entrou em desespero.

Alguns, como a família Castor, o mecânico Alaor e o balconista Jonas invadiram chorando e aos gritos a casa do prefeito, exigindo que fizesse a televisão voltar.

“Não agüento mais, pelo amor de Deus,Sandoval, cadê a televisão? Minha mulher e as crianças estão lá chorando”, gritava Zélio Castor, segundo o prefeito.

Nas ruas, segundo relato do farmacêutico Delair Moura, “as pessoas andavam como zumbis, sem saber o que fazer e para onde ir. Uma senhora minha conhecida dizia “televisão, volte pelo amor de Deus’”.

Drama de Mariluce

O prefeito contou que o motivo maior do desespero foi a população perder a reapresentação dos dez capítulos finais da telenovela “Meu Amor Ainda Vai Voltar Para Mim”,da Rede Do Nosso Brasil, que leva todos para dentro de casa e deixa as ruas vazias no horário das 18h37 às 20h43.

Outro programa bastante popular na cidade é “Bicho da Roça”, apresentado na rádio pelo vice-prefeito Silvino Gomes, com repentistas, modas de viola e duplas caipiras, que vai ao ar 40 minutos antes da telenovela. Quando tudo se apagou, por volta da seis da tarde de sábado, e três horas depois a energia não havia voltado, começou o caos.

Bento Lima, conhecido como “Liminha Banguela”, o tipo mais conhecido de Três Montes, chorava deitado na calçada e lamentava: “Vou perder a Mariluce!, Vou perder a Mariluce!”, referindo-se à estrela da telenovela, que no capítulo do sábado descobre que está grávida do namorado, que esfaqueou seu irmão, e fugiu levando todo o seu dinheiro e ainda não sabe que o pai, a mãe e três primas sofreram um grave acidente.

Lado positivo

O médico Deusdete Gomes contou que atendeu mais de 150 pessoas, jovens e velhos, com crise de choro tão forte que teve que dar calmantes a elas.

“Nunca vi coisa igual”, ele disse, “parecia uma doença que fazia todo mundo chorar feito criança, sem falar nos que gritavam em desespero”.

A confusão, que envolveu praticamente toda a população, só diminuiu cerca de 43 horas depois, quando o vice-prefeito teve a idéia de levar os artistas do seu programa de rádio para o coreto da pracinha, acalmando os mais desesperados.

Seis horas depois, a energia foi restabelecida, e quando a luz iluminou a rua principal da cidade, centenas de pessoas davam vivas e gritavam “Mariluce voltou, Mariluce voltou!”.

Pelo jeito, só o vice-prefeito Silvino Gomes, viu no apagão um lado positivo:”O show no coreto foi um sucesso e agora a audiência do meu programa de rádio só vai ficar perder pra novela”.