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Favela
Buraco do Lula
escolhe em concurso
“os dez mais pobres”
Por Henrique
Meireles
Repórter de Investimento
A
ONG carioca Pobreza é Tristeza realizou a semana passada
um concurso para escolher “os dez mais pobres” da
favela Buraco do Lula, na zona leste.Uma sátira à
revista Forbes, que publica a tradicional lista dos mais ricos
do mundo, o concurso tem o objetivo de chamar a atenção
das autoridades para as condições miseráveis
em que vivem os favelados e dar prêmios em alimentos para
os vencedores e suas famílias.
Cerca de 3.500 moradores se inscreveram no concurso,mas apenas
20 foram selecionados, pois entre os excluídos havia muitos
que ganhavam até 800 reais por mês, quantia considerada
muito alta pelos organizadores.
Ao contrário de outras favelas cariocas, onde a violência
e os assassinatos são comuns, a Buraco do Lula é
considerada pacífica, tendo registrado no ano passado apenas
73 mortes.
O
campeão
O
grande “vencedor” do concurso foi Jovelino Paixão,
de 45 anos, que ganha como catador de papel 478 reais por mês,
com que sustenta a família, mulher e dois filhos, ainda
envia 53 reais para a mãe idosa que mora no Piauí
e paga prestação de 35 reais por mês pela
compra de um celular.
Pedreiro de profissão, Jovelino teve no ano passado um
acidente grave, ao cair do teto de uma casa e além de perder
os dentes da frente passou três semanas no hospital.
“É
assim mesmo”, ele filosofa. “A vida é como
uma fila: tem gente na sua frente, mas tem muito mais atrás
de você. Não reclamo porque tem gente ainda mais
pobre que eu aqui na favela”.
Ele ficou surpreso e abriu um amplo sorriso quando lhe entregaram
o prêmio de cinco quilos de mantimentos, duas latas de óleo
de milho e uma compota de doce de figo.
Os
demais
O
segundo lugar ficou com João de Deus, um garçom
de 41 anos, que embora chegue a ganhar 750 reais mensais, tem
de sustentar a mulher e sete filhos pequenos e paga 197 reais
da prestação do seu barraco. Ganhou três quilos
de mantimentos e uma lata de óleo de soja.
Noriel
José de Lima chegou em terceiro lugar no concurso. Aos
65 anos, aposentado há 20 por causa de um atropelamento,
que lhe deixou um defeito na perna, o ex-gari vive com 320 reais
mensais, recolhendo papel e garrafas, que vende para um depósito
em Bangu, a vários quilômetros da favela, que ele
sobe e desce todos os dias e gasta no percurso, como conta, cerca
de quatro horas e meia. É viúvo e ajuda a pagar
a prestação da única filha, de 34 anos, que
faz um curso de telemarketing. Como prêmio, recebeu dois
quilos de mantimentos, uma lata de sardinha e um ingresso para
o show de fim de ano do rapper Miserê Joe.
Os
sete outros eleitos são Josias Alvim (234 reais por mês),
Rubens Canova (210 reais), Pedro Bento (200), Joaquim Calheiros
(195), Renan Roriz (190), Luiz Inácio de Lima (179) e João
Romeiro Juccá (com 92 reais por mês). Todos foram
contemplados com o “Diploma de Pobreza Absoluta”.
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