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Quando eu vivia na Inglaterra, onde nasci, havia um jogo de futebol muito popular entre os alunos da Universidade de Cambridge. O torneio chamava-se “Indomitable Brits” (britânicos indomáveis) e os dois times éramos nós, os nativos, contra os estrangeiros. Os nossos adversários eram estrangeiros mesmo que estudavam lá. Além da rivalidade entre as equipes, que se entusiasmavam a cada minuto, havia também outro fator social e bem real a inflamar a contenda: as legiões de imigrantes que invadiam (e continuam a invadir) nosso país em busca de empregos e melhores condições de vida.
Para dar um toque realista, escolhíamos como adversários os alunos que realmente tinham caras de estrangeiros: indianos, paquistaneses, brasileiros, afegãos, e quem mais a gente conseguisse reunir.
O divertido é que, não demorava muito, e a rivalidade se transformava em disputa séria e, freqüentemente, em confrontos físicos. E com as duas torcidas agitando, o clima era digno de um final de campeonato entre Liverpool e o meu glorioso Manchester United.
Numa das minhas últimas partidas , antes de vir para o Brasil, o jogo estava duro para nós, por culpa de um exímio atacante adversário, um indonésio que a gente apelidou de “kuning”, que quer dizer “amarelo” na língua dele, porque sua pele era de um amarelo como eu nunca tinha visto.
O jogo já estava nos acréscimos, empatado sem gol, quando um brasileiro, o “Menendez”, cometeu um pênalti que o juiz não viu e quase ninguém viu também, exceto o nosso jogador, Reginald, que sofreu a falta e reclamou bastante, mas o juiz, muito ruim, por sinal (era árabe), disse que não houve nada. A partida foi interrompida, discutem daqui e dali, quando aconteceu a surpresa: Kuning levantou a mão, gritou por silêncio e disse: “foi pênalti sim, eu vi tudo”.
Apesar dos protestos dos adversários, o juiz voltou atrás, deu a falta, e Reginald converteu. Ganhamos de 1 a 0, graças ao indonésio honesto.
Por isso, digo sempre para meus amigos intolerantes: quando menos se espera, esse pessoal do Terceiro Mundo surpreende a gente positivamente.
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