O implacável vigilante
das sessões de cinema

Gaspar exige silêncio e já expulsou mais de 30 arruaceiros

Por Beau Geste Moreira
crítico de cinema trainee

Gaspar Alvim já foi expulso dos cinemas algumas vezes, em compensação, ajudou a expulsar mais de 30 pessoas, que chama de “estraga-filme”. Segundo explica, “são aqueles chatos, inconvenientes, grosseiros e sabe lá mais o quê, que conversam durante a sessão, falam no celular, dão gargalhadas de cafajeste, contam em voz alta o filme para o cara ao lado e dão até arrotos. Uma barbaridade”.

Farmacêutico aposentado, de 65 anos, louco por cinema desde adolescente, Gaspar começou por acaso sua missão de “justiceiro da platéia” em 1960, na sua cidade, Juiz de Fora, Minas Gerais.

Estréia em “Ben-Hur”

Segundo relembra, “numa noite em 1960, a população inteira da cidade parecia estar no cinema para ver ” Ben-Hur “, o maior sucesso da época. Até o prefeito estava lá. Começa o filme e não é que um grupo de gaiatos, bem atrás de mim, passou a fazer barulho de beijos toda vez que o Charlton Heston aparecia na tela. Em vez de protestar, muita gente na platéia ria, achava graça daqueles cretinos”.

Gaspar diz que, na terceira vez, não agüentou. Levantou-se, e, do alto dos seus 1,89m, virou para a fila de trás e gritou: “Como é que é, seus macacos, vão calar a boca ou vou ter que botar vocês pra fora?!”

Uma salva de palma explodiu no cinema, apoiando o que ele tinha feito, e os arruaceiros ficaram em silêncio até o fim do filme. Foi sua estréia como “fiscal” das sessões de cinema.

Depois dessa, ele já se envolveu em dezenas de confrontos, foi expulso 11 vezes de cinemas em várias cidades, após se atracar com arruaceiros, envolvendo a polícia, e conseguiu botar pra fora umas 30 pessoas, depois que pediu silêncio, não atenderam, ele saiu da sala, encontrou um policial, voltou ao cinema, e foram levados pra fora.Outras vezes, resolvia o problema sozinho mesmo, não sem alguns confrontos físicos.

Público não mudou

“Ver um filme num cinema é coisa séria, uma experiência mágica, que não se esquece, até mesmo quando passam essas porcarias modernas, tipo homem-aranha, homem-águia, jacaré voador, sei lá,aqueles caras que sobem pela frente de um prédio em dois saltos e vão pegar o vilão lá na torre”, ele afirma.

“Mas gosto tanto de cinema que até mesmo essas drogas eu assisto. Só não abro mão de três coisas: boa projeção, conforto e silêncio”.

Gaspar garante que só vê filmes nos cinemas, nada de televisão, dvd ou vhs (“é coisa pra criança”), e diz que já viu até hoje mais de dez mil filmes, todos anotados, desde o dia, o cinema e a ficha técnica.  Segundo diz, nos velhos tempos, os cinemas brasileiros eram horríveis, com projeção ruim, poltronas desconfortáveis e o público ainda pior, que fazia todo tipo de arruaça em plena sessão.

Hoje em dia, ele afirma, a projeção é ótima, o conforto é de primeira, só o público não mudou, continua a mesma droga de sempre.

“Mais do que nunca, piorou, com essa praga de celular,  o barulho dos sacos de pipoca, de balas e o diabo. É aí que eu entro em cena, às vezes com jeitinho, outras vezes, de sola mesmo.”