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Nosso repórter vai a
reunião secreta de
bispos que querem
mais dízimo do fiel
Por Josafá Gaudêncio
subeditor de Seitas e Cultos
Vesti um terno elegante e caro e usei bigode falso e óculos para disfarçar minha cara de adolescente. Foi assim que consegui entrar na ampla e bem iluminada sala dos fundos do Templo Deus é Grande, na zona leste de São Paulo. Um amigo, que já fez parte de um grupo religioso, me deu a informação sobre a reunião dos bispos de 23 igrejas evangélicas, que mandaram representantes de vários estados brasileiros para o encontro.
No e-mail, meu amigo me alertou: “fique de olho, não é coisa burocrática, não. Estou certo que vão discutir assunto importante e delicado. Além de tudo, a reunião é secreta”.
Com essa informação segura, falei com meu editor, que não hesitou, deu sinal verde e na hora mesmo ordenou ao caixa que liberasse uma verba para o aluguel do terno e outras despesas. O bigode eu aproveitei o que tinha em casa, que usei num baile uma vez. O mais difícil foi a pasta 007, que tinha que ser coisa boa, pois conheço esses bispos, só usam artigos de primeira. Nosso editor de economia, homem elegante, me arranjou o acessório.
Despesas crescem
A ampla sala estava lotada, pois cada bispo veio com vários assessores, todos carregando pastas 007. Não tive dificuldade em me misturar ao grupo e entrar sem problema. No bolso de cima do paletó escondi um minigravador de última geração pronto para disparar.
Quando o primeiro bispo começou a falar, liguei a coisa e o nome que deu foi Novelino Mondezza, da Igreja dos Santos e Devotos Fiéis. Ele disse que seu grupo, do interior do Paraná, passava por sérias dificuldades financeiras e por isso sugeria uma campanha nacional de todas as igrejas representadas na reunião para instituir um mínimo de 3 reais de dízimo para cada fiel.
Ele multiplicou o número de fiéis registrados em sua igreja por 3 reais e disse que o resultado (cerca de 8 milhões de reais por mês) ainda assim seria insuficiente para cobrir as despesas gerais, bem como as pessoais de seus 42 bispos e 150 assessores, que viajam constantemente pelo país e pelo exterior em busca de novos locais para a seita.
“Sem mencionar”, ele explicou, “os programas e shows de TV e rádio, revistas, jornais,impressos e os chamados santinhos, que tiveram um brutal aumento recentemente”.
Citou como exemplo o grupo musical Big Bad Rappers From Hell, que no ano passado cobrava 2 mil reais por show e agora pede 3 mil”.
A platéia aplaudiu com entusiasmo.
Proposta aprovada
O segundo a falar eu já conhecia de uma entrevista no ano passado. Foi Geneton
Candeias, bispo-chefe da Igreja Renascer do Bom Fiel,uma das mais prósperas do país, com 60 templos aqui e 15 no exterior.
Ele disse de início que era favorável a qualquer aumento, mas perguntou aos demais como fazer isso. Argumentou que o fiel dá o que quer e o que pode e não é possível, pela lógica e pela lei, instituir um dízimo mínimo.
Novelino Mondezza voltou ao microfone e disse que o bom devoto obedece fielmente sua igreja, aceita as ponderações de seus bispos, que respeita e sabe que farão o melhor por ele.
E argumentou: “Poder de persuasão, sermão convincente, psicologia de massa e apelo à fé e ao bom senso do fiel são nossos mais marcantes talentos. Eu diria, mesmo,nosso dom divino. Que tal usá-los com mais veemência para essa nova e importante etapa de nossa vida religiosa?”
A sala inteira aplaudiu e gritou com entusiasmo.
O último a falar foi Josafá Boanerges, do Templo do Rebanho dos Humildes, talvez a seita menos próspera entre as presentes. Ele afirmou que endossava tudo o que foi apresentado e sugeriu um dízimo mínimo de 5 reais.
Cansados de mais de uma hora e meia de debates, todos aplaudiram de pé e a proposta foi imediatamente aprovada.
Na semana que vem haverá nova reunião, com a participação de todas as 246(ou a metade, mais uma) igrejas evangélicas brasileiras, que deverão oficializar e sacramentar o dízimo mínimo.
Na saída, em meio a um grupo de bispos, Geneton Candeias desabafou: “Oh Deus, como é cansativo dar ao povo um pouco de religião e fé”.
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