Otello e Manon lutam para não deixar a ópera morrer

Por Tadeu Ponchielli
subeditor de Música Erudita

A ópera La Traviata, em alto volume, inunda a ampla e bonita sala e no sofá, em meio a grande papelada, Otello LoVerdi fala no celular, gesticulando bastante e fazendo rir sua esposa, Manon. Apesar do ambiente alegre e descontraído, o casal não consegue esconder sua preocupação. O motivo: o número cada vez mais reduzido de aficionados e freqüentadores dos espetáculos de ópera.

O casal, que dedicou mais de 30 anos ao gênero, e trouxe ao Brasil algumas das mais famosas e caras companhias internacionais, vê com tristeza o que chama de “a agonia de um gênero musical que, apesar de tudo, se recusa a morrer”.

Essa luta pela sobrevivência, segundo Otelo, “nada mais é que uma batalha entre o sublime, o bom gosto e um tipo de espetáculo acima do alcance das camadas menos educadas, que preferem o mais simplório e popularesco”.

Ele não acredita que esteja sendo elitista nessa colocação, pois diz que já apresentou óperas longas e complicadas até em favelas, com bons resultados.

“O que acontece” ele diz, “é que, ao contrário de um show de samba, de rock, forró, coisas de nível inferior, a encenação de uma ópera requer alto investimento num palco e num teatro especializado. Sem falar em conhecimento específico e, é claro, gosto musical apurado. Em praça pública, a coisa ficou mais complicada ainda. Montar uma ópera pela metade, com poucos recursos, é melhor nem pensar”.

Ópera e rock

Segundo Otello, a ópera está viva na família Lo Verdi há várias gerações e, se possível, ele vai tentar passá-la para os três filhos e também para os netos.

“Minha paixão pela ópera veio do meu pai, Ruggero (uma homenagem do pai dele ao seu compositor predileto, Leoncavallo, autor de “I Pagliacci”), que, contudo, tinha em Verdi sua paixão, e achou que o nome do personagem de uma de suas óperas seria o ideal para mim”.

Quanto ao nome de sua mulher, Manon, ele diz que foi apenas uma coincidência (trata-se de uma personagem da obra de Puccini, Manon Lescaut), pois ninguém na família dela gostava de ópera.

“Nós no conhecemos durante um espetáculo, no La Scala, em Milão, e casamos vinte dias depois, quando descobrimos que éramos apaixonados pelo gênero”.

Ele afirma ter visto o ano passado uma estatística, não oficial, segundo a qual o número de aficionados do gênero vem caindo de ano para ano no Brasil.

“Eram 60 mil em 2003 e dois anos depois o número havia diminuído para 48 mil, aí incluídos compradores de discos, cds e dvds”, Otello revela amargurado.

“No ano passado, apresentamos no Municipal uma caprichada montagem internacional de “Carmen”, de Bizet, uma das mais populares óperas no mundo inteiro. Para nossa decepção, vendemos só 40 por cento dos ingressos”.

Na mesma ocasião, e bem perto do teatro, estavam apresentando um show com nada menos que 15 bandas de rock, o que, segundo um amigo, pode ter tirado o público da ópera.

Mas Otello não admite a hipótese: “No dia em que esses símios com guitarras ameaçarem a ópera, então não resta mais nada no mundo civilizado”.

Porém, o que mais deixa o casal temeroso sobre o futuro da ópera é a ignorância até mesmo nas classes mais altas. Segundo ele, um amigo médico, e outro advogado, sempre que o encontram, perguntam: “E aí, Otello, continua ouvindo aqueles chatíssimos dramalhões musicais?”