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Âncora
de telejornal
pede demissão ao
vivo denunciando
censura da direção
Por Gaspar
Zamboa
Articulista sênior
Cido
Gonzalez, apresentador do telejornal Show News, da Rede
Paratodos, pediu ontem demissão em pleno ar, acusando a
direção da emissora de “censurar sistematicamente
notícias contra o governo”, segundo afirmou. O episódio
pegou a todos de surpresa, pelo inusitado e porque, após
anunciar a decisão, Gonzalez saiu de cena diante das câmeras,
deixando sua colega de telejornal, Mariluz Medina, atônita,
sem saber o que fazer. Tudo aconteceu em cerca de 30 segundos,
até que o diretor do telejornal ordenou a entrada dos comerciais.
“Nunca vi nada igual na minha vida”, disse depois
o jornalista Marcelino Petrônio, que trabalhou durante 25
anos em emissoras de televisão.
“Foi tão inesperado que, de início, pensei
que fosse algum comercial inovador. Mas olhei a cara zangada do
Gonzalez, dizendo que a direção da emissora acabara
de censurar mais uma notícia e por isso pedia demissão,e
percebi que a coisa era séria mesmo”, disse Petrônio.
“Depois, o ar estupefato da Mariluz mostrou que não
tinha nada de brincadeira”.
Todos
os sapos
Nos
corredores da emissora, e mais ainda nos altos escalões,o
escândalo causou grandes estragos. O diretor de jornalismo,
Paulo Roberto Kacke, tentou minimizar o caso, dizendo aos repórteres,
que invadiram sua sala no 7º andar, que o apresentador Gonzalez
havia surtado, depois de dois ataques nervosos durante a semana.
Mas um repórter deixou-o sem ação, ao perguntar
por que não o substituíram, já que mostrava
problemas de saúde.No final da tarde de ontem, informações
por confirmar diziam que Kacke havia sido demitido.
O diretor-geral da emissora,Cecílio Dantas Kissass, se
recusou a falar com a imprensa e mandou a secretária informar
que fará declarações nos próximos
dias.
Na
sua casa no bairro Jardim dos Flamboyants, na zona leste do Rio,
Cido Gonzalez estava tranqüilo e recebeu os repórteres
com um sorriso. “Finalmente tirei um pesadelo da minha vida.
Foram dez meses engolindo todos os tipos e tamanhos de sapos.
Agora, acabou”, disse, soltando um prolongado suspiro de
alívio.
Gota
final
Todos
queriam detalhes e exemplos de textos censurados. De início,
ele se negou, mas, com a insistência dos jornalistas, explicou
que seu ato surpreendente em pleno ar foi a gota final em meses
de humilhações e interferências absurdas que
favoreciam abertamente amigos, parentes e principalmente autoridades
federais e estaduais, que pagavam os favores, omissões
e censuras com gordas verbas de publicidade.
“Na redação do telejornal, o clima era quase
sempre de constrangimento e vergonha, pois as notícias
eram proibidas ou alteradas, às vezes minutos antes de
ir para o ar”, denuncia Gonzalez. “Uma vez, houve
o caso daquele pastor da Igreja Cristo Enriquece os Puros, que
deixou cair uma sacola cheia de dinheiro quando subia a escada
rolante do shopping. A sacola se abriu e começou a chover
dinheiro por todo lado. Foi uma confusão incrível,
todos querendo pegar as notas. O pastor tratou de correr, mas
um segurança o segurou e ele foi preso. Todos os telejornais
noticiaram, claro, um assunto incrível como esse. Mas nós
não publicamos uma só nota. Sabem por quê?
Porque o homem da sacola, eu soube depois, é cunhado do
nosso diretor tesoureiro”.
Público
só pula
De
acordo com o âncora, vários outros casos semelhantes
aconteceram no telejornalismo da Rede Paratodos. “Basta
vocês pesquisarem, por exemplo, os escândalos de corrupção
envolvendo autoridades e políticos dos partidos do governo
e vão descobrir que eles estão ligados a omissões
e às verbas publicitárias”, ele garante.
Gonzalez promete divulgar brevemente um comunicado explicando
detalhadamente todas as denúncias de censura, e acrescenta:
“Cabe a vocês, jornalistas, investigarem o assunto
em profundidade. Se vocês não vigiarem, quem será?
O público? Coitado, esse só quer pular em show de
rock e ver novela e engole qualquer coisa”.
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