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Ganhadora
da sena diz que
por fim vai realizar um velho
sonho: ir embora do Brasil
Por Mariela Cavatappi
do caderno Meus Jogos
Aparecida
Gonçalves teve uma dupla surpresa quando foi anteontem
de tarde à lotérica do seu bairro conferir o resultado
da mega-sena. Encontrou muita gente, inclusive repórteres
e fotógrafos, e desconfiou que alguma coisa tinha acontecido.
Quando conferiu o resultado, deu um grito de espanto e alegria,
logo registrado pelos fotógrafos: ela foi uma das três
ganhadoras do prêmio maior da mega-sena e vai receber R$
1.450.000,00.
Refeita da surpresa, durante quase duas horas Aparecida foi cumprimentada
e abraçada por dezenas de pessoas e entrevistada e fotografada
pelos repórteres. O dono da lotérica, Juvêncio
Lima, seu velho amigo, havia ligado para os jornais e televisões,
que a esperavam desde a manhã.No dia em que fez o jogo,
ele brincou, dizendo que os números eram os do seu aniversário
e que, se a amiga ganhasse, ia querer uma comissão.
Pagar dívidas
Aparecida, uma auxiliar de escritório de 32 anos, separada
do marido, enfrentava até então grande dificuldade
para educar dois filhos pequenos, com seu salário de 480
reais Para equilibrar as despesas conseguia um extra de 150 reais
mensais, costurando para fora.
“Acabou, acabou a luta!”, ela disse chorando para
a repórter. “Só não jogo a máquina
de costura pela janela porque vou dar para minha vizinha Carmela,
que sempre me ajudou com as crianças.E amanhã mesmo
vou lá na firma entregar minha demissão”.
Do lado de fora da casa, no Jardim das Amoras, um dos mais pobres
e violentos da zona sul de São Paulo, amigos, vizinhos
e desconhecidos formavam uma longa fila para cumprimentá-la.
De cada cinco, dois pediam dinheiro, alegando todo tipo de dificuldades.
Alguns tentavam comovê-la, beijando as mãos e o rosto,
deixando-a visivelmente constrangida.
“O que é que eu posso fazer? A maior parte dessa
gente tem uma vida muito mais difícil que a minha. Mas
se eu der dinheiro para um, todos vão querer, e o que eu
ganhei não ia dar para tantos”, ela lamenta baixinho.
Parentes e amigos tinham a inevitável pergunta: o que vai
fazer com tanto dinheiro? Ela respondia que a primeira coisa será
pagar as dívidas e as 10 prestações finais
da casa.
Medo
de seqüestro
Todos
pareciam satisfeitos com a resposta, mas depois, ela confidenciou
para o tio, Liséias Gomes, e para a repórter: “Vou
procurar uma vida melhor para meus filhos e para mim na Europa.
Tenho uma prima que vive em Portugal e é pra lá
que eu vou. Todos esses anos morando neste bairro, trabalhando
dez horas por dia, as crianças na escola pública,
num bairro ainda mais perigoso que o nosso. Que futuro meus filhos
e todo mundo daqui pode ter? Não quero bancar a orgulhosa,
mas sempre achei isso antes: acho que o Brasil não está
dando não”.
Em seguida, faz um ar sério e desabafa: “Mesmo que
esse bairro fosse legal e civilizado, agora mesmo é que
não posso ficar. Com tanto dinheiro e com a minha cara
no jornal e na televisão, sou uma candidata forte para
ser seqüestrada. Eu e meus filhos. Até ir embora do
Brasil, a primeira coisa que vou fazer é pagar uns seguranças
para me proteger. Depois, vou viver a vida, e muito boa, sabe?”
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