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Nos
bons e dourados tempos da juventude, ir ao cinema era um dos meus
programas prediletos. Mas meus pais só permitiam se eu
fosse acompanhada de uma tia ou alguma amiga de confiança
deles. Sozinha, nunca, com um rapaz, nem pensar!
Sapeca e rebelde com eu era, resolvi um dia desobedecer todo mundo
e aceitei o convite do meu vizinho Leomar, o Mazinho, como era
conhecido na nossa rua, para ir com ele ao saudoso Cine Rex, em
Juiz de Fora,de tantas e belas recordações. Mazinho
era um rapaz bonito e cobiçado por todas as pequenas. Além
disso, e da emoção de merecer tanta atenção
dele, o filme que estava passando era o maior sucesso da época,
que lotava os cinemas do meu tempo. Chamava-se “À
Noite Sonhamos”, com o galã mais lindo de Hollywood,
e o meu predileto, Cornel Wilde, que interpretava o compositor
Chopin. Era emoção demais para uma menina de 17
anos e por isso resolvi desobedecer meus pais e fui feliz da vida
para o cinema com o Mazinho.
Fiquei maravilhada com as cores do filme, os vestidos, os cenários,
a música deslumbrante e a beleza de Cornel Wilde. Chorava
e ria o tempo todo, acompanhado a vida trágica de Chopin.
Às vezes me abraçava ao Mazinho, por emoção,
e outras vezes só por malandragem, ora essa.
Tudo ia no melhor dos mundos, até que a tragédia
aconteceu. Numa cena, Chopin toca furiosamente o piano, atormentado
pela perversa amante George Sand e pela tuberculose em estado
avançado que o consumia, quando, de repente, na tela gigante,
uma gota de sangue cai sobre o teclado. Dei um grito tão
grande, de puro horror, que chegaram a acender as luzes. Foi uma
comoção e um vexame! Todos me olhavam, Mazinho sem
saber o que fazer.Eu morrendo de vergonha. A vida inteira nunca
agüentei ver sangue, entrava em pânico. E naquela tarde
no cinema, a gota de sangue me arrasou.
Fomos para casa, antes do fim da sessão, nunca mais vi
o Mazinho, mas revi o filme outro dia na televisão, até
o final. Passei sem fricotes pela cena do sangue. Em vez de entrar
em pânico, veio-me à memória a saudade do
Mazinho e também o vexame que causei. Ah, a mocidade!
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