O que é um agitador cultural?

Nestes tempos loucos e medíocres, em que nada é tudo e tudo é nada, qualquer imbecil, homem ou mulher, acha-se no direito de se intitular “agitador cultural”. Em primeiro lugar, what the hell quer dizer “agitador cultural”? Seria alguém que usa a cultura para se agitar? Seria um mero divulgador com nome moderno? Seria uma versão hodierna do antigo “agent provocateur”, expressão francesa geralmente ligada a policiais infiltrados em setores a serem investigados? Who knows!.

A semana passada fui contragosto a uma noite de autógrafos em que o escritor, nulidade em todos os departamentos, lançou um romance cujo nome não vou declinar para não deixá-lo embaraçado, se bem que duvido que ele seja capaz de se embaraçar. Se assim fosse, não teria lançado o livro em primeiro lugar.

Senti-me forçado a comparecer porque quem me enviou o convite sabia de todos os dados importantes a meu respeito. Foi o que aguçou minha curiosidade. Além do nome e, logo abaixo, a nefanda expressão “agitador cultural”.

Não vou aborrecer meus leitores com a noite de autógrafos, uma daquelas excruciantes sessões de egos conhecidos e desconhecidos e a habitual fauna anônima de papa-salgadinhos e vinhos de terceira linha. Confesso que passou pela minha mente o selvagem pensamento de conhecer o tal “agitador cultural”, só pelo desprazer de desmascará-lo. Felizmente não passou de um fugaz pensamento.

Todo esse intróito teve o objetivo transportar o leitor aos meus tempos na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Foram anos iluminados, longe desta inacreditável América Latina, e também duríssimos, durante meu duplo mestrado, em sociologia e literatura.

Foi quando conheci John Ashley Rhett Wilkes Butler, cujo nome, de secular e nobre linhagem sulista, era tão longo como a sua cultura. Ele, sim, era um agitador cultural. Íntimo de metade da intelligentsia americana, conhecia praticamente todos os astros de Hollywood, fora casado cinco vezes, uma delas com a notável poetisa húngara Yakova Borjú, e não tinha descanso com as estudantes do campus, que lhe caíam aos pés. Butler estava sempre na linha de frente do sexo, dos debates, protestos e passeatas, alguns explosivos e violentos, que inflamaram Berkeley naqueles anos, em que os americanos eram ainda contestadores e na vanguarda cultural, social e política.

“Os homens, cordeiros em credulidade,são lobos em conformismo”, frase do poeta Carl Van Doren, era o credo e estandarte que Butler citava sempre para fustigar indecisos e acomodados.

Convivi em proveitosa amizade com ele durante cinco anos. De repente, desapareceu. Fui reencontrá-lo, tempos depois, mas só numa fotografia de primeira página no New York Times, ao lado de ninguém menos que Richard Nixon, que disputava a presidência. Foi um choque. Então me ocorreu: sendo quem era, aposto que Butler se engajou na campanha sem qualquer convicção política ou ideológica, só pelo prazer e desafio de tentar agitar culturalmente o governo republicano. Infelizmente, não conseguiu, como se sabe.