Carioca vence duas anorexias
e decide assumir sua gordura

Por Gwendolina Lins
Enviada especial ao Rio

Helena Emerenciana da Silva, uma bem-humorada carioca do bairro de Madureira, subúrbio do Rio, é um caso raro no cada vez mais perigoso mundo dos regimes de emagrecimento, em que duas mortes de jovens modelos aconteceram recentemente.

Aos 35 anos, ela já enfrentou duas ameaçadoras anorexias, uma das quais a levou à beira da morte, e combateu quatro períodos de excesso de peso, entre eles, um no ano passado, em que chegou a pesar 143 quilos. Helena garante que agora basta, pois vai finalmente se aceitar como é, “uma gordinha sexy e resolvida”, como agora se considera.

Com 36 quilos!

Promotora de vendas numa empresa de artigos de beleza , ela conta que tudo começou cinco anos atrás, quando foi aprovada no emprego e uma amiga lhe chamou a atenção para o excesso de peso “De início, não levei muito a sério, mas aos poucos aquilo ficou na minha cabeça”, ela conta. “Eu tinha na época 89 quilos, para meus 1,66m, um excesso grande. Outras amigas me enrolavam quando eu perguntava o que achavam de mim. Umas diziam que eu estava muito bem e outras que eu ia ficar ótima se perdesse uns quilinhos”.

Promovendo produtos de beleza para mulheres e em meio a outras funcionárias da sua equipe, todas magras e elegantes, ela decidiu perder peso de forma radical.

“Eu era a única gorducha da minha equipe e, com o tempo, fui me achando um monstro de gordura. Foi assim que tudo começou”, lembra.

Ela diz que nas festas da empresa sentia que a olhavam com desaprovação e então quis emagrecer de forma radical. Foi o início da descida, que culminou com a anorexia, deixando-a somente com 36 quilos e às portas da morte.

“Levei quase um ano para me recuperar, com a ajuda da família e do meu namorado. O problema é que, cinco meses depois, eu estava gorda outra vez, com 92 quilos. E começou o drama novamente, igual ao de antes”.

“Estou me lixando”

Helena cita a psicóloga que a orientou, segundo a qual a obsessão por ser elegante, perder peso para ficar como essas modelos, que parecem “um macarrão ambulante”, de acordo com sua definição, e assim se enquadrar nos falsos padrões de elegância, se tornou uma perigosa epidemia no Brasil. Isso nada tem a ver com os cuidados positivos com a saúde e sim com uma imagem falsa, imposta pelos fabricantes de produtos de emagrecimento e beleza e pelos costureiros, que precisam inventar a cada dia novas tolices para vender suas roupas.

A segunda anorexia seguiu os padrões da primeira, mas não foi tão ameaçadora como a anterior. “Eu já estava escolada com o caso, mas foi feia também. Baixei para 52 quilos, perdendo 40 quilos! Uma barbaridade. Sofri muito e foi aí que resolvi parar com tudo e me aceitar como era. Minha natureza, eu acho, é ser gordinha. Pra que brigar com isso?”

Helena foi assunto de três reportagens em jornais e revistas do Rio, que lhe deram uma popularidade que, espera, seja positiva e sirva de exemplo para outras mulheres que arriscam a vida por causa da falsa elegância.

“Foi uma tragédia, quase morri na primeira vez, escapei na segunda e sofri feito louca, mas passei a controlar o peso, e hoje sou feliz como nunca. O melhor é que a pressão na empresa acabou. Agora sou diretora de departamento, e estou me lixando para o que pensam de mim”, ela conclui com um sorriso.