Livro brasileiro do
cachorro Varney é
sucesso maior que
best seller americano

Por Valdiléia Castanho
do caderno Nossos Cães

O escritor e jornalista Ney Godinho Luzetti teve a idéia quatro anos atrás, quando seu cão Varney morreu aos 13 anos. Ele queria homenagear seu cachorro, que, como diz, “encheu minha vida e a da minha família de alegria e de pânico também”. Apaixonado por animais domésticos, de todos os tipos, Ney guardou uma espécie de diário com tudo de relevante que aconteceu no seu relacionamento com o cão, desde filhote até dois dias antes de sua morte. Quando foi ver, tinha preenchido nada menos que 25 grossos cadernos, nos quais se baseou para escrever o livro.

Lançado no começo deste ano, “Minha Vida com Varney” (Editora Caveo Canis, 240 páginas) ficou escondido nas livrarias por vários meses, até que, de repente, começou a chamar atenção do público. No mês passado, para surpresa da editora e, principalmente do autor, o livro estourou nas vendas.

“Quando o editor me ligou outro dia e disse que o livro já estava na quinta edição, com 40 mil exemplares vendidos, e subindo cada vez mais na lista dos best sellers, quase caí da cadeira”, conta Ney.

Ele diz que a surpresa maior, além do inesperado sucesso, foi seu livro vender mais que o similar americano, atualmente entre os mais lidos no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Também sobre um cachorro, chamado Marley, o best seller americano conta as aventuras e desventuras de seu dono com ele, que fez da vida da família uma festa e um inferno igualmente.

Nada de plágio

Ney se apressa em eliminar qualquer dúvida sobre um eventual plágio do similar americano. “Antes de tudo, entreguei os originais do meu livro à editora três anos atrás, quando ninguém por aqui tinha ouvido falar do tal Marley. Creio que tudo não passa de coincidência, uma coincidência, por sinal, ótima para mim, pois sem dúvida o sucesso do americano ajudou a puxar as vendas do meu”.

O autor conta que a aventura toda começou quando ganharam o cachorro que, ainda filhote, fez xixi na bolsa da sua mulher, Varínia. O primeiro confronto foi no dia seguinte, quando o casal e os dois filhos se reuniram para decidir como chamá-lo.

“Foram quatro dias de discussão e pelo menos umas 20 sugestões de nomes, cada um mais louco que o outro”, conta Ney. “Quando chegamos ao impasse,que poderia durar dias, resolvi e a questão e o batizei com meio nome da minha mulher e o meu, e ele passou a se chamar Varney. E assim ficou, mesmo com vaias e protestos dos garotos”.

O fim do discurso

A foto que ilustra a capa do livro (ver acima) tem uma história e tanto e foi feita na tarde em que o autor foi entregar a um cliente um discurso que ele levou uma semana para redigir. Ney chegou uma hora antes do homem, importante economista, subir ao palco para a abertura de um simpósio internacional.

“Tive que levar o Varney porque, deixá-lo em casa, mesmo preso, era sempre um perigo”, ele conta. “Minha mulher estava viajando, as crianças na escola, e não houve jeito. Com várias recomendações, pedi a um porteiro na entrada do hotel que cuidasse dele. O discurso estava numa pasta, junto com um sanduíche, que botei na mesa e fui cumprimentar o cliente. Não passaram dois minutos, comecei a ouvir um som familiar, e que sempre me causava horror. Era Varney mastigando o discurso (o sanduíche fora engolido segundos antes). Meu grito não foi suficiente para interromper a destruição dos papéis. Salvei algumas folhas, mas não o bastante para o cliente fazer seu discurso que, com alguns frenéticos e improvisados remendos, foi o que ele teve de usar a contragosto”.

Grande choque

Esse é apenas um dos muitos episódios do livro, mesclando humor, horror, pânico e dramas, como a vez em que Varney passou um dia inteiro uivando, ou chorando,quando morreu uma tia de Ney, que o visitava todos os domingos e levava sempre um brinquedo para Varney. O cachorro ficou tão triste como a família e, num gesto surpreendente, reuniu com a boca e as patas e trouxe para a sala todos os brinquedos que ganhara da falecida.

“Era um cachorro especial, cheio de vida, de truques e paixão por todos nós”, diz Ney. “Sua morte foi um choque tão grande que nunca mais quisemos nenhum cachorro em casa. E olhem que animais domésticos sempre foram minha paixão. Espero que o livro lhe faça justiça e dê ao leitor o mesmo prazer e emoção que Varney nos deu”.