|
Até
mesmo nas duas ditaduras que enfrentamos, a do Getúlio
e a de 64,eu votei, fingindo em casa, com a família, que
havia eleição, mas votei. Fazendo as contas e juntando
tudo, estou participando de eleições há 50
anos. Santo Deus, é tempo demais, não? Não
sou pessimista como o meu querido amigo Luiz Henrique, o Quique,
já falecido, que sempre que me encontrava durante uma eleição,
dizia: “Votar pra que, Acácio? Vai ficar tudo na
mesma. Este país não tem cura. Saiba que Deus não
é brasileiro, o Diabo é que é”.
Eu achava engraçada a opinião do Quique, um tipo
rebelde daqueles bem zangados, que se orgulhava de nunca ter votado
na vida, pois acreditava que as cartas estavam sempre marcadas
em qualquer eleição. E ninguém o convencia
do contrário, por mais que tentasse. Sabe Deus quantas
vezes tentei. Dona Mercedes, a esposa dele, senhora distinta e
paciente,e politizada, ficava indignada quando o marido dizia
essas coisas.
Essas velhas lembranças retornaram à minha cabeça
no último domingo, quando eu voltava da seção
eleitoral, depois de votar mais uma vez. Cheguei aos 78 anos,
e, se Deus permitir, ainda quero votar muitas vezes mais. Não
sei se sou otimista demais, ao contrário do Quique, mas
apertei os botões da máquina de votar com a esperança
de sempre, a de mudar as falcatruas do governo que não
pára de nos envergonhar.
Porém, para ser bastante honesto, de vez em quando me passa
uma nuvem negra no pensamento e eu quase acredito nas palavras
do meu falecido amigo: “Votar pra que, Acácio? Vai
ficar tudo na mesma”.
|