Dinheiro ou sangue?

O telegrama de Mary Ann, minha santa esposa, foi bem claro: “Ou você volta para casa ou quebrarei todas as suas varas de pescar trutas”.

Esse foi meu segundo susto do dia em Brasília. O primeiro veio da aeromoça da Varig que disse que tínhamos de pular porque a Boeing queria seu avião de volta.

Como poderei eu retornar para o recesso de meu lar se aqui, na função de brasilianista, e colaborador do Weekly News, de Iowa, a coisa ferve em termos políticos.

Poucos deputados circulam pelos corredores do Congresso, mas alguém tem de ficar para alimentar as sanguessugas.
Andando com cuidado e na ponta dos pés, ainda assim quase esmaguei uma delas do Baixo Clero.

O presidente viaja em campanha e disse, no Sul do País, que se parece com Getúlio Vargas. Um tiro no próprio peito e um bilhete de despedida - “Saio da vida para entrar para a escória” - viria bem a propósito.

Seu maior adversário – Alckmin – também viaja beijando crianças em colos de mães e prometendo isso e aquilo bronzeando sua calva, que o uso de bonés está proibido pela Justiça Eleitoral.

E trocam farpas em pronunciamentos, ambos já tendo atirado a primeira pedra que estilhaça vidraças de irados leitores.

A candidata que os ameaça, Heloísa Helena, pragueja contra ambos mais irada que um pastor evangélico frente a diabos ameaçadores.
E as pesquisas favorecem o Presidente, que de nada sabe dos escândalos, assim como os pesquisados menos favorecidos e beneficiados – sem nenhum cunho eleitoral, claro – pelo Fome Zero e Bolsa Escola.

Desse modo, circulo pelo espaço amplo vazio de Niemeyer à cata de assuntos, vendo funcionários com suportes para plasma nas mãos no lugar da bandeja do cafezinho.

Em um canto – apesar do asseio e dedetização do Plenário– dois ratos, pasmos, discutiam a vergonhosa praga das sanguessugas .

E, tendo de tirar dinheiro no banco, para pagar meu hotel, veio do caixa o terceiro susto do dia:

“O senhor quer em dinheiro ou sacolinha de sangue?”


* Stan Oliver Laurel, entre outras atividades em sua cidade natal, é coordenador estadual dos bancos de sangue de Iowa. Ao ouvir falar pela primeira vez em sanguessugas, imaginou que fossem os temíveis vermes da classe dos hirudíneos. Quando soube que eram políticos de Brasília, assustou-se mais ainda e temeu por seu bolso.