Cacique expulsa
da tribo deputado
que era “laranja”
de sanguessugas

Por Túlio Della Jungle
Editor de Nossa Natureza

Cassado dez meses atrás por corrupção, o deputado federal Paulino Aicó Aiatucaram mal se recuperou e já enfrenta outro golpe: foi expulso da sua tribo. A notícia foi dada ontem pelo próprio cacique, Januário Saravah Moiakarã, da tribo dos kranankaores-aiã, que habitam o sul do Pará, e à qual pertence o ex-deputado. Segundo o cacique, a conduta de Paulino, “uma vergonha para a nossa gente”, o tornou indigno de pertencer à comunidade indígena. Nos últimos dez meses ele não saiu do noticiário da imprensa, acusado de apropriação indébita, formação de quadrilha e recentemente de ser “laranja” dos sanguessugas do Congresso.

Paulino foi surpreendido quatro meses atrás por um repórter da televisão DoNossoBrasil, que, usando um microfone escondido, fingiu ser um madeireiro e lhe ofereceu 50 mil reais para convencer as autoridades da região paraense de Curocatira a “liberar” a derrubada de dezenas de quilômetros quadrados de árvores. Sem hesitar, Paulino aceitou na hora a oferta e disse que dentro de dois dias o negócio estaria fechado, bastando que o “madeireiro” procurasse o fazendeiro Jonas Epitácio Galvão, conhecido como “Machadão”, que controla toda a região e teria financiado a campanha de cinco dos atuais deputados sanguessugas.

Tradição de honra

Depois que a denúncia foi para o ar na emissora, Paulino negou tudo, disse que foi vítima de uma armadilha dos adversários políticos e de grupos ambientalistas, que o detestam porque sempre defendeu a derrubada controlada de florestas paraenses.

Investigações posteriores da Polícia Federal descobriram que o índio deputado tinha em sua conta particular cerca de 470 mil reais, 35 mil dólares, uma casa em Manaus e outra em Miami e documentos que o comprometeram definitivamente com os madeireiros. Diante da constatação de corrupção, Paulino acabou perdendo o mandato, após quatro meses de manobras no Congresso por parte de seus amigos sanguessugas, que tudo fizeram para evitar a cassação. Ele aguarda ainda o resultado do processo criminal, que pode mandá-lo para a prisão pelo menos por cinco anos.

O cacique Moiakarã afirmou ontem em Curocatira que sua gente e a tribo têm uma longa tradição de honradez e que a conduta de Aiatucaram é vergonhosa para todos. “Não poderia deixá-lo ficar na tribo, mesmo sendo meu filho”, disse.