O brasileiro está
rindo cada vez menos

Meu pai, o palhaço Urtiga, dizia que era fácil fazer o público rir, bastava contar uma piada antiga, que todos já conheciam, e “a lona do circo vem abaixo”, uma expressão que ele usava sempre, nos bons e maus momentos.

Só que isso foi 30 anos atrás, quando todas as misérias do nosso Brasil não se comparavam com as de hoje. Que triste, não, gente? Mais triste pra mim, que ganho o pão fazendo as pessoas rirem. Se vocês querem saber, meu suado dinheirinho está cada vez mais duro de conseguir. Nos shows do nosso circo ando contando piada antiga, piada nova, piada estranha, até piada meio suja, e já esgotei o estoque de piada de político corrupto. E querem saber? Está duro fazer a platéia dar risada.

Pra dizer a verdade, achei que o problema era meu, sei lá, a gente envelhece e perde o pique. Mas aí, numa rodada de chope no bar do Minguinho, onde se reúne a nossa turma do circo, eu estava conversando com o velho amigo Edmundo Cerquilho, que é o ótimo palhaço Pirilampo, e ele se queixou do mesmo problema e contou que agora tem que se matar pra arrancar uma gargalhada do público. Antes, qualquer bobagem fazia a lona do circo vir abaixo.

Depois que o Cerquilho me contou o que aconteceu no seu circo, e comparei com o meu, cheguei a concluir que o brasileiro (os poucos que vão ao circo) está com medo, assustado, sem entusiasmo, sem humor e muito preocupado com o futuro de sua família e do nosso país.

A matéria-prima do palhaço é o humor, que ele usa para provocar o riso e fazer as pessoas felizes, ainda que por pouco tempo, e ajudá-las a esquecer o dia-a-dia, seja ele qual for. Mas Deus é testemunha que minha profissão nunca passou tantos problemas como agora. Piada sobre deputado não dá mais, pois essa gente, além de perder a vergonha, perdeu a graça há muito tempo Mas não desisto, vou continuar fazendo o povo rir até quando der, e o governo permitir.