No meu celular ou no seu?

Temo que ninguém tenha notado minha ausência no último Sacolão.
A carraspana que recebi do editor foi injusta. Com esses feriados prolongados, resolvemos - eu mais outros brasilianistas - ir ao litoral.
Com o congestionamento,passamos todo esse tempo na rodovia. Quando escapamos do primeiro, demos de cara com os outros dois e, somente esta semana consegui retornar à lide ingrata.

Estranhei, contudo, o grande movimento de ambulâncias na estrada, sem que não tinha visto nenhum desastre grave.

Explicado me foi – e também pela leitura atrasada dos jornais – que eram entregas de sanguessugas em isopores com gelo, substituindo a antiquada transfusão de sangue. Incentivadas por deputados, claro, preocupados com a saúde do cidadão brasileiro.

Também, nesse mês inteiro que tive pra meditar e pensar na vida, preso na Kombi com milhares de outros carros cheios de crianças e sogras, percebi que tenho a proteção divina.

Protegeu-me o céu de um outro congestionamento monstro na capital, com gente fugindo de um tal de Marcola e tiroteios que paralisaram a cidade.

Remeteram meus parcos neurônios à situação da Máfia e suas brigas internas.

Saem atirando por todos os lados, matam uma porção de gente e depois se abraçam, comovidos, resolvendo dar um tempo.

Os “corleones”, mesmo presos, ditam as ordens de ataque recebendo a reação de outros soltos, que se vingam proibindo o uso de celulares.
E de que adianta ter celular se não se consegue falar por ele nas imediações dos presídios?

Com a construção de mais deles a toque de caixa para conter a bandidagem, não se conseguirá falar de lugar algum.

Ou seja, o usuário terá de cometer algum delito para ser preso e falar pelo celular que, do lado de dentro dos muros da prisão, pega muito bem.

Corre o boato entre os brasilianistas que celulares vermelhos ficarão em gabinetes das mais altas autoridades do país para comunicação direta com as potentes provedoras dos presídios, evitando-se assim batalhas desnecessárias e mais mortes.

Lembrando-me da piada do marido que pega em flagrante a mulher com o amante, eles estão fazendo muito bem em tirar o celular da sala.

Por essas e mais outras, a máquina mais avançada que tenho em mãos é minha Smith-Corona 1956, o que me livra de dissabores. Escrita a matéria, um menino a leva para ser transmitida por cabograma, sendo lida pelos meus incrédulos leitores do Weekly News de Porkville, Iowa, dez dias depois.


* Stan Oliver Laurel confessa que relutou durante anos em usar um celular, que considera inútil e invasiva conquista moderna. Quando ganhou um de presente, no 65º aniversário, descobriu que não pegava em sua cidade, por causa do bloqueio de uma pedreira próxima de casa. A pedreira foi destruída e hoje ele fala com o mundo. Mas diz que ainda prefere o telefone convencional.