Filha de Freud diz que pai
era homem de duas caras

Por Helga Maria Schmutz
Repórter científica

No ano em que o mundo comemora os 150 anos do nascimento de Sigmund Freud, um estudioso alemão lança nova luz sobre a vida e a obra do chamado pai da psicanálise. Uma luz que agora espalha também sombras e dúvidas que podem mudar tudo o que se sabia até então sobre sua personalidade.

Manfred Pimmel, psicólogo, psicanalista e professor emérito da Universidade Kleiner Kürbis, em Munique, e um dos maiores especialistas internacionais em Freud, quis também homenagear o “sábio de Viena”. E mergulhou fundo em estudos e livros sobre ele, mas foi além, quando decidiu ouvir descendentes, parentes e outros estudiosos em busca de algo novo sobre Freud. Os resultados de suas longas e surpreendentes pesquisas estão no livro que ele acaba de publicar na Alemanha, intitulado “Freud ein Betrug?” (Freud é uma Fraude?).

Surpresa na porta

“Consegui entrevistar cerca de 80 pessoas, a maioria das quais nada trouxe de novo sobre ele”, conta Pimmel. “Minha busca saiu nos jornais alemães e vienenses e a divulgação acabou trazendo à minha casa, inesperadamente, o que considero uma bomba e uma grande e inédita revelação sobre ele”.

Pimmel conta que já estava conformado com os dados que conseguira, nada além do já conhecido, quando, numa tarde de domingo, no começo do ano, a campainha de sua casa tocou, ele foi atender e uma senhora de seus 80 anos se apresentou: “Professor, sou Rosine Traum Freud, filha de Sigmund, e gostaria de conversar com o senhor”.

O ar de espanto de Pimmel chamou a atenção da visitante, que disse: “Pode acreditar, professor, sou filha de Freud. E posso provar o que afirmo”. E acrescentou: “A filha bastarda de Freud”.

Passada a surpresa, ele a convidou a entrar e após horas de perguntas, que só quem conhecesse Freud profunda e intimamente poderia saber, ele não teve mais dúvidas: Rosine era mesmo o que dizia ser, a filha de Sigmund Freud.

Revelações

Pimmel, cada vez mais fascinado e surpreendido com o que ouvia, ficou durante cinco horas com a visitante, que contou detalhes íntimos e até então inéditos da vida do avô.

Rosine começou revelando que nasceu em 1926, fruto de um encontro sexual clandestino entre sua mãe, a bela Frida Heiss Bett, e Freud. Frida fora uma das governantas da mansão dele, mas acabou demitida por Martha, mulher de Freud, alegando que era incompetente no trabalho. Mas Rosine diz que, com muita certeza, Martha percebera algo ilícito entre o marido e a empregada.

Rosine era muito jovem quando Freud visitou sua mãe, pelo menos umas cinco vezes, no número 3.069 da Liebendstrasse, num bairro pobre e afastado de Berlim. E levava sempre muitas frutas, mantimentos e brinquedos.

“Pelo que me lembro, era um velho imponente, muito sério e formal”, disse Rosine.”Sempre que chegava em nossa casa, bastante modesta, levava presentes para mim, beliscava minha bochecha e perguntava: ‘quem é esta linda menina?’ Não acredito que não soubesse quem eu era. Se não soubesse, por que visitaria minha mãe, uma modesta ex-empregada? O que eu acho é que era um hipócrita. Pelo que sei, ele nunca assumiu o caso com minha mãe, e muito menos me reconheceu como filha. Bastarda, mas filha. Sinto muito, mas é isso que eu acho dele: um homem de duas caras”.

Pimmel, que não quis contar mais detalhes de sua surpreendente descoberta, na entrevista que concedeu ao SacolãoBrasil por telefone, de sua casa em Munique,recomenda a todos que leiam seu livro para saberem mais. E como fiel freudiano de primeira linha, se recusa a entrar em meandros e análises psicanalíticos para explicar o episódio e as motivações de Freud.

E afirma: “Ele era um gênio que mudou tudo dentro de nossa mente e nossa psique. Só que, no caso da mãe de Rosine, creio que, além do cérebro, falou mais alto, ou mais abaixo, o coração. E, mais abaixo ainda, vocês sabem o quê”.