Crise econômica e
casamento aberto
quase somem com
as noivas de maio

Por Carina Birdbrain Vieira
Editora de Nossa Vida Social

Dono da tradicional Papel Passado, que já teve seus dias de glória e bons negócios, Waldir Neder olha desanimado para o pequeno movimento num sábado de maio. Em outros tempos, sua loja estaria este mês cheia de compradoras, moças, mães e adolescentes românticas e sonhadoras. Todas procurando vestidos de casamento na rua São Caetano, na capital paulista, conhecida como o paraíso das noivas, com suas 54 lojas, quase uma ao lado da outra.

“Só não fechei minha loja ainda”, queixa-se Neder, “porque continuo vendendo bem artigos menores, como grinaldas, botões, flores artificiais e cds com músicas especializadas em núpcias. O rock balada “Nosso Amor é Forever”, com o Tony Melody, é o que mais vende, ainda hoje. É tudo isso que está pagando o aluguel, e olhe lá”.

Anos atrás, a rua vivia cheia de gente e os comerciantes tinham de contratar pessoal extra para atender o público. Neder lembra que, apenas num fim de semana de maio, em 1995, vendeu nada menos que 12 vestidos de noiva.

“E completos, do sapato ao buquê”, e explica que o “completo” quer dizer isso mesmo, com tudo a que a noiva tinha direito.

“Naqueles bons tempos, eu vendia desde a roupa de baixo da noiva, calcinhas, meias, ligas, até o arroz especial, parboilizado, graúdo e lavado, para jogar nos nubentes na saída da igreja”, conta Neder. Ele explica que o “nubente de luxe 5”, o traje completo mais luxuoso da loja, custava então 15 mil reais.

“Era caro sim”, admite, “mas os jovens apaixonados não ligavam para o preço, queriam o melhor. E eu facilitava o pagamento, em até quatro vezes, com juros baixos. Para se ter idéia, vendi no ano passado um desses, o único, nos últimos oito anos, pela metade do preço, para uma senhora, que finalmente, depois de muito sacrifício, conseguiu casar a filha de 37 anos na Itália, e ainda tive de dividir em oito parcelas mensais”.

Crise e liberalismo

Neder diz que os problemas começaram com a crise econômica e os planos de economia inventados pelos vários governos que “assolam nosso país”, como define. “Havia inflação alta naqueles tempos, mas também ganhava-se muito dinheiro e a classe média podia comprar vestidos, e até mesmo nossos enxovais completos, que custavam, em dez vezes sem acréscimo, 22 mil reais.Hoje, ninguém pode ter um luxo desses, e não falo só da classe média. Até mesmo gente rica pensa várias vezes antes de comprar um vestido de noiva. Além disso, é essa gente da alta sociedade que mais se junta, sem casamento”.

Elegante, bem vestido, 57 anos, pai de três filhas, “todas em idade de casamento”, Neder diz que outro fator que concorre para os problemas das lojas da rua é o que chama de “relaxamento moral e religioso da sociedade atual”.

“No meu tempo, as famílias brasileiras tinham na religião, na tradição e nos bons costumes os pilares da sociedade. Veja o que acontece hoje. Os casais não dão o menor valor à união tradicional, de papel passado, casamento no civil e religioso. Hoje em dia, gostou, juntou e tudo bem. Não deu certo, melhor ainda, é só cada um seguir seu caminho”, Neder lamenta, e diz que, por tudo isso, é um milagre que sua loja e a maioria delas na rua das noivas não cerraram as portas há muito tempo.E lembra que o último casamento de que cuidou foi o da sobrinha, Liliane, em 97.

Ele revela que, além da sobrevivência comercial, sua preocupação maior é o futuro casamento das três filhas. “A mais nova vai ficar noiva no mês que vem e as outras duas não têm nem namorado, até onde eu sei. Mas de uma coisa não abro mão, que elas se casem de papel passado, no civil e religioso, de vestido de noiva, tudo direitinho. O enxoval completo é que não falta aqui na loja, o resto deixo por conta de Deus”, Neder afirma.