Eu deveria ter sido chargista

Escrevo minhas coisas sempre dando a elas uma abordagem analítica, mesmo não sendo consideradas assim pelos meus leitores, que as acham humorísticas.

Brasilianista, ninguém acredita que meus artigos, publicados no Weekly News, de Iowa, são fatos reais colhidos no campo de batalha árdua. Riem às bandeiras despregadas, sendo motivo de galhofas.

Fosse eu um chargista, creio que teria maior sucesso. E nenhum esforço faria para isso porque, de onde alinhavo os fatos, a piada já vem pronta.

Não o seria na Dinamarca onde, nada tendo a criticar e o país funcionando às mil maravilhas, um deles resolveu mexer com deuses dos outros.

Mas teria enorme sucesso se, em vez de me matar em quarenta linhas a escrever e analisar um artigo sério, o fizesse através de traços.

Sobre o fato de o Presidente declarar que 2005 foi um ano sofrido e ter ido pescar para pensar nos problemas do País, não gastaria meus neurônios nem as teclas de minha Smith-Corona 1956.

Um sujeito a pedir silêncio, pois que o presidente estava a pensar em soluções melhores para o povo, e este com um balão de pensamento contendo um grande peixe com a faixa Lula 2006, seria minha charge.
Um José Dirceu agarrado aos pés de um ministro do Supremo Tribunal Federal a querer de volta seu mandato de deputado teria essa legenda: “Dá para esperar o fim do desfile das escolas campeãs do Carnaval?” seria uma outra.

Faria também o prefeito José Serra e o governador Geraldo Alckmin a empurrar um carro alegórico, tendo em cima o presidente Lula a sambar.

O mesmo presidente Lula – já num outro desenho – a assistir uma rinha de galos onde brigam dois tucanos.

Sobre a guitarra que o Bono Vox do U2 doou para o projeto Fome Zero, faria o presidente pensando num nordestino famélico a devorá-la com os dentes.

Tendo como título “Emenda Parlamentar”, faria um deputado dizendo a outro, tendo como fundo o Congresso Nacional: “Você também está pensando em emendar até à Páscoa?”.

Num quadro, o presidente Lula, com um copo na mão, a pedir um brinde ao bom resultado das pesquisas que o levariam em primeiro turno a novo mandato. No outro, ele apontando o copo dizendo ser água mineral.

Seria bem mais simples e ririam tal qual riem de meus artigos sérios e profundos sobre os mesmos assuntos.

Com a escassez cada vez maior de fitas para máquinas de escrever, caminho para o fim, junto com minha Smith-Corona 1956.

E, se me extingo com a pecha de humorista, que ela seja em traço.
Vou me matricular em uma escola de desenho.


* Stan Oliver Laurel chegou a desfrutar de algum prestígio entre os artistas plásticos de seu país quando expôs aquarelas e bicos-de-pena em sua cidade, Porkville, Iowa.Em 1956, ganhou do pai a máquina de escrever Smith-Corona e seu destino foi selado.Quando copiou na máquina a letra em português do “Tico-Tico no Fubá”, a pedido da namorada, veio a inspiração e tornou-se brasilianista.