Cinco anos em cinco

Verdade seja dita, fazemos aniversário. Festa não haverá nenhuma, já que a verba anda curta, palavras que ouço desde que ingressei no quadro de colaboradores do SacolãoBrasil. Não teve amigo oculto, nem Natal nem Ano Novo e não teremos festa de aniversário pelos cinco anos, milagrosamente on-line.

Milagrosamente, também, o fato de o editor nunca dispensar um bom uísque em fins de tarde. Nunca descobri como o brasilianista inglês Kenneth Goodson mantém sempre cheia sua garrafinha de bolso com gim.

“Não temos caixa-dois e pagamos religiosamente nossos impostos”, brada vez outra o editor-chefe indignado com suposições sobre sua impoluta pessoa.

Mas entre um uísque e outro do chefe e uns tragos roubados da garrafinha de gim do Kenneth, foram cinco anos bem divertidos.

Cobri a posse do presidente-operário e até ajudei a empurrar o Rolls Royce presidencial que resolveu enguiçar no trajeto, causando vergonha ao britânico brasilianista colega, que disse ser sabotagem das elites porque, segundo ele, um Rolls Royce nunca enguiça.

Dormi dois dias com ianomâmis no meio da selva e vi, com horror, o Kenneth tomar banho pelado com as nativas. Acordei nu numa rede com mais outras pessoas, depois de tomar um chá alucinógeno - e corre o boato que tem por lá um indiozinho que é minha cara.

Fui com o presidente à China, assisti a diversos filmes em versão pirata e li vários livros mal xerocados do Paulo Coelho à disposição de todos no Aerolula.

Participei da aula inaugural da Escolinha Invasiva do MST, o que me custou uma calça novinha, rasgada numa atravessada de cerca de arame farpado.

Inúmeras vezes fui detido em aeroportos, tendo sido a mala de minha Smith-Corona 1956 confundida com o caixa-dois carregada por companheiros.

Quase fui despedido do Weekly News, de Iowa – onde mantenho uma desacreditada coluna – quando mandei a matéria dos dólares carregados numa cueca, causando uma crise asmática no editor, de tanto que ele riu.

Perdi a conta das noites que passei dormindo na Kombi 1972 verde-abacate da Associação dos Brasilianistas, comprada por preço de banana de um japonês do Ceasa, quebrada em estradas desertas.
Tive minha catarata agravada não tirando o olho, por dias a fio, da TV Senado, onde assisti à operetas-bufas, gags carlitianas e dramalhões que fariam corar o povo mexicano.

Assisti ao desenlace do Rasputin da corte que, morto politicamente, “eppur si muove”.

Foram bons cinco anos, em que minha santa esposa Mary Ann chegou perto dos 200 quilos comendo donuts, em crise de minha ausência, segundo ela.

Perdi vários campeonatos de pesca à truta nessa luta árdua.

Valeu a pena e foi divertido, penso eu, enquanto molho a fita esgarçada da Smith-Corona 1956 em tinta de carimbo, em fase progressiva de extinção.
Como eu.


* Stan O. Laurel, em fase de depressão após várias visitas a Brasília, foi homenageado recentemente pela Associação dos Brasilianistas, comemorando seus 10 anos na especialidade. Ganhou na ocasião uma máquina de escrever elétrica, modelo 74, que recusou.