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Eu
queria começar este artigo com um velho clichê da
nossa profissão: “o palhaço sempre faz rir,
mas chora por dentro”. E têm outros, como “a
alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”
ou ainda “no picadeiro da vida, quem mais sofre é
o palhaço”.
São aquelas “abobrinhas” que nós, do
circo, especialmente os palhaços, estamos cansados de ouvir.
Como contei na minha coluna de estréia no SacolãoBrasil
(edição 51), meu pai, que também era palhaço,
o famoso Urtiga, sonhava coisa melhor para mim e me obrigou a
estudar. Eu me formei, exerci a profissão de professor
por dois anos, mas logo desisti, porque era ainda mais sofrida
e difícil do que palhaço de circo. Então
segui o caminho do meu pai e há 20 estou no picadeiro,
não digo feliz, mas bem melhor do que como professor. E
tão mal de vida como a grande maioria dos brasileiros.
Por falar nisso, uma coisa que eu achava engraçada, e agora
não é mais, era observar a reação
do público que lotava as arquibancadas enquanto eu interpretava
meu número. As pessoas riam de tudo que eu fazia, até
mesmo das bobagens mais infantis. Hoje em dia, quase não
há mais circo e muito menos público. As poucas pessoas
que ainda aparecem, são sérias, preocupadas, de
caras fechadas e a gente precisa fazer muito esforço para
elas rirem um pouco.
Não sou nenhum sociólogo para analisar o que está
acontecendo, mas acho que tudo é conseqüência
do que nossos dirigentes e os políticos estão fazendo
com o nosso país. Corrupção, uma atrás
da outra, a vida cada vez mais difícil, os salários
que nunca são suficientes, a violência e tudo mais.
Por essas e outras, começo a achar que o velho clichê,
o palhaço sempre faz rir, mas chora por dentro, é
mais verdadeiro que nunca.
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