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Tatiana,
minha neta de 15 anos, costuma me dar uns pitos toda vez que eu
começo a falar dos meus tempos de moça. Com aquela
impaciência e ironia típicas dos adolescentes de
hoje, ela me interrompe quando relembro o passado: “Oh,
vó, esse papo já era, conta coisa mais nova”.
Já me acostumei com a bronquinha dela e continuo relembrando.
O segredo para ela não sair da sala é caprichar
nas palavras no início da minha história antiga,
isto é, carregar nos “temperos” e não
se esquecer de botar um romance, um namoro, um caso de amor. Aí,
não falha nunca. Tatiana finge que não está
prestando atenção, eu carrego na emoção
e então ela começa a se interessar e a fazer perguntas.
Foi assim que consegui toda a atenção dela ao lembrar
um caso de Natal que aconteceu comigo no longínquo ano
de 1953, quando eu era uma jovem sonhadora de 22 anos. E muito
bonita também, se vocês querem saber.
Minha prima Dirce me convidou para passar a ceia da meia-noite
na casa dela, eu me enfeitei toda porque ela disse que ia me apresentar
a um vizinho, o Armando, um rapaz fino e elegante, que iria causar
grande impressão em mim. Logo me interessei, pois aos 22
anos você pergunta o dia inteiro quando o homem de sua vida
vai aparecer. Era Natal, dia de festa e congraçamento,
então imaginei se o Armando, como Dirce descreveu com tanto
entusiasmo, seria finalmente o meu príncipe encantado.
Na festa, eu olhava para os convidados, um por um, e não
havia meio de achar alguém com a cara do Armando. Quando
cobrava da Dirce, ela só dizia: “Calma, ele ainda
não chegou”.
A esta altura da história, minha neta estava com os olhos
bem abertos, me fitando com um interesse como há muito
tempo eu não via.
Então, voltando ao passado, minha curiosidade e interesse
chegavam ao auge, eu mal agüentava esperar.
Mas a minha expectativa iria durar muito tempo ainda. Por fim,
três horas depois, quando o relógio deu meia-noite,
todos começaram a gritar e, pela porta dos fundos, finalmente
chegou o Armando!
“Essa não!”, eu gritei decepcionada.
O
Armando, o sonho romântico da minha juventude, meu príncipe
encantado, era o Papai Noel!
Era realmente fino e elegante, como vi depois sem roupa(a de Papai
Noel, claro), e também tinha 40 anos, casado e pai de dois
filhos. Furiosa, olhei para a Dirce, que estava rindo da peça
que tinha acabado de me pregar.
Minha decepção só foi menor que a da minha
neta Tatiana, que esperava um final bem mais romântico e
apimentado, creio.
“Oh, vó, que história mais boba!”, ela
disse, e saiu zangada da sala.
E vocês querem saber? A história era boba mesmo,
e uma grande decepção também para uma jovem
de 22 anos, que esperava, não o Papai Noel, mas o príncipe
encantado.
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